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Vida e morte na cidade: Segregação e exclusão na era da pandemia

Mariana dos Santos Nesimi

Maurilio Lima Botelho

"Eles precisavam de nós para colhermos algodão e agora não precisam mais. Agora que não precisam mais, eles vão matar a todos nós, como fizeram com os índios". James Baldwin, 1968.

A morte em massa provocada pelo novo coronavírus nos EUA, nas últimas semanas, estabelece uma relação direta com a questão racial. Através de diferentes canais midiáticos, de fácil acesso, nos deparamos com dados que apontam a cidade de Nova York como o epicentro da doença, tendo o maior registro de mortes computadas no país. Dentre o quantitativo geral, o quadro de vítimas fatais se mostra racializado: 34% são latinos e 28% negros; embora os brancos sejam a maior parcela da população.1 No estado de Louisiana, por exemplo, até a primeira semana de abril, 70% dos mortos pela covid-19 eram negros, mas estes representavam apenas um terço da população do estado.² Em Chicago, mais da metade dos infectados e 72% de todos os mortos são afrodescendentes, população que representa apenas 30% dos habitantes da cidade.³





Existem explicações possíveis para esse cenário alarmante, como a presença de um grande número de doenças pré-existentes (com destaque para a diabetes) ou à completa falta de acesso aos serviços de saúde num país onde tudo basicamente precisa ser pago pelo paciente. Mas fica nítida uma desproporção: uma doença que começou pela classe média e elite, em virtude das viagens realizadas por empresários e turistas, agora acomete a camada mais pobre da população norte-americana, carente de recursos que possibilitem o enfrentamento à pandemia. Tal fato demonstra que até as “comorbidades” são relativas: num país que já contém um grande número de diabéticos (a taxa entre negros é duas vezes maior que entre brancos), o acompanhamento médico intensivo e restrito a poucos é que vai garantir a “vitória” contra o coronavírus e não exatamente estar dentro ou fora de grupos de risco.


Mas há ainda um modo mais evidente de enxergar essa grande diferença: o processo de segregação espacial delimita cada vez mais a linha entre vida e morte. Nesses exemplos temos o estado de Louisiana, tradicionalmente marcado pela política de segregação racial, com bairros negros ao redor das grandes cidades, além de uma cidade como Nova York, marcada por antigos bairros de ocupação negra e latina (Bronx, Queens, Harlem), que passaram por processos de gentrificação recente, mas que ainda assim mantém uma diferença entre as zonas de classe média e as ruas tradicionalmente pobres, com densidade demográfica elevada e habitações precárias.4


Entretanto, é Chicago que nos oferece a melhor demonstração dos aspectos urbanos de uma sociedade cada vez mais segregada. A taxa de mortes por coronavírus se eleva abruptamente no gueto do West Side, local secular da segregação negra nos Estados Unidos. Berço das primeiras teorias urbanas que deram conta da segregação, Chicago expressa com violência e absoluta clareza a manutenção do confinamento racial depois do fim dos regimes oficiais de separação no sul: o gueto de Chicago, nas palavras do sociólogo Loïc Wacquant, resulta da “descendência de uma linhagem de escravidão” depois da mecanização da agricultura do sul.5 Graças a essa separação brutal de bairros com até 99% de negros e comunidades marcadamente brancas, as fronteiras de vida são nítidas: há uma diferença, em Chicago, de quase 9 anos de expectativa de vida entre um bairros do negro e wasp, com esta população, obviamente, vivendo mais. A prefeita da cidade, Lori Lightfoot, relatou há pouco que “problemas de diabetes, doenças cardíacas e respiratórias são (...) predominantes em comunidades de negros e pardos. Sabemos que o acesso à saúde é um desafio semelhante em muitas dessas comunidades” 6. Coincidência ou não, a preocupação que outros líderes não tiveram partiu de uma mulher negra e gay.


No entanto, não se trata apenas de desigualdade social ou de um desamparo estatal: o gueto do West Side é a versão extrema do confinamento espacial, do controle social levado a cabo sobre áreas socialmente excluídas, de uma hipersegregação voltada a grupos cuja funcionalidade já não existe para a economia de mercado, bairros que se tornaram depósitos de “categorias sociais excedentes”.7 Não é por acaso que o acúmulo de corpos na sociedade norte-americana seja tratado com indiferença pelos líderes políticos e por empresários, preocupados com a “retomada” das atividades econômicas: no momento em que escrevemos, já são oficialmente quase 35 mil mortos pelo coronavírus nos EUA, mas o governo começa a planejar a “saída” das medidas de distanciamento social, indiferente ao avanço da pandemia sobre os bairros segregados.


A política de contenção social de indivíduos descartáveis, que sempre operou com elevada letalidade policial, agora também conta com a atuação do vírus. Não é por acaso que as outras instituições de custódia de população excedente nos EUA não mereçam sequer a divulgação da grande imprensa internacional, mesmo com a tensão aumentando nas prisões insalubres, com número crescente de infectados, ou nos centros de detenção que agora aceleraram os processos de expulsão de estrangeiros ilegais.8 Negros, presidiários e imigrantes compõem os supranumerários econômicos no centro do capitalismo e, com o desemprego que deve se ampliar, a morte passa a ser vista como uma “solução” plausível.


Essa tragédia monumental em curso no país da Estátua da Liberdade serve de guia para o Brasil. Não é apenas a liderança de extrema-direita que nos une: o passado compartilhado de escravidão e o presente comum de violência policial sistemática nos aproximam na trajetória da segregação urbana radicalizada. Em nossa nação, as favelas, assim como os guetos na terra de Trump, desempenham cada vez mais a função de instituições de confinamento de grupos excluídos, espaços controlados por meios policiais ou militares e onde a violência e o homicídio são a norma.9 A morte da população economicamente excedente, dos “vabagundos”10, é sistematicamente promovida pelas instituições políticas, aceita com indiferença pelas instituições jurídicas e agora esperada como “dano colateral” pelas instituições econômicas.


Já é bastante óbvio que serão nas periferias urbanas, nas favelas e nas áreas mais empobrecidas dos bairros distantes dos grandes centros que se amontoarão o maior número de vítimas do coronavírus.11 Na Baixada Fluminense, três dos seus municípios estão entre os dez do país considerados como mais vulneráveis à epidemia.12 As favelas do Rio de Janeiro começam a ter o número de contágios em aceleração e registro de dezenas de óbitos. Bairros populares do Rio de Janeiro têm um número de óbitos desproporcionalmente mais elevados do que as áreas de classe média e da elite. Campo Grande, o mais populoso do Brasil, já é o segundo com maior número de óbitos, mas possui muito menos casos de contágio do que Copacabana ou Barra da Tijuca. Quando for desenhado o mapa da letalidade da covid-19 na região metropolitana do Rio de Janeiro, ele provavelmente coincidirá com o da morte violenta nas áreas de conflagração social e violência policial: as maiores taxas de homicídio estão distribuídas pela Zona Norte, Oeste e Baixada Fluminense.


Entre outros bairros com destaque na letalidade do coronavírus podemos citar a Maré e Bangu, com dezenas de infectados e já vários mortos. Esses dois bairros são importantes do ponto de vista da compreensão da segregação urbana no Rio de Janeiro (e sinalizam o futuro do Brasil): são localidades majoritariamente negras, com o maior número de apenados registrados nas prisões da cidade e que sofreram nos últimos anos com intervenções militares.13 Já foi constatada, no Brasil, uma divergência racial de infectados e mortos pela covid-19,14 mas dado o nível de subnotificação gigantesco, ainda é cedo para avaliar essa dimensão, que deverá ficar óbvia com o transcorrer da pandemia nos próximos dias e principalmente com os atestados de óbito. De qualquer modo, num país em que negros vivem em média menos que brancos15 e onde o acesso aos serviços de saúde de qualidade dependem da renda elevada, será evidente a linha racial predominante na tragédia epidêmica.


Não é por acaso que temos por aqui o mesmo nível de indiferença oficial em relação ao estrago que o coronavírus deve provocar nas favelas e nas prisões – o ministério da Justiça tem constantemente garantido que não há riscos para a população carcerária, que reconhecidamente convive com elevado número de problemas respiratórios graves.16 É a vida descartável, a vida “improdutiva”, a vida dispensável das populações economicamente excedentes que está em jogo: não se trata da simples desigualdade social ou da mera pobreza, mas de uma exclusão econômica que se transforma em exclusão forçada pelo Estado, cujo limite é a morte, não importa se pelas forças repressivas estatais ou pelo abandono sanitário. O problema sequer é o da “diferença de classe”: social e economicamente excluídos, uma parte crescente dos moradores das favelas não servem como força de trabalho, repetindo-se aqui o que Wacquant já havia registrado para o gueto norte-americano, que deixou de ser reservatório de mão de obra superexplorada pois sua população foi “rejeitada pelo mercado de trabalho assalariado durante uma boa parte de suas vidas”.17 A desclassificação social se amplia e, por isso, a inutilidade econômica se completa com a indiferença política e sanitária.


O exemplo máximo desse caráter descartável de populações socialmente desclassificadas da periferia urbana foi o que ocorreu em Bangu (processo que de resto se repete em vários outros lugares pelo Brasil). No calçadão do bairro, durante essa semana, uma grande aglomeração podia ser notada, mas as lojas estavam fechadas: tratava-se do comércio realizado por camelôs, indivíduos desprovidos de trabalho, contrato ou renda, vivendo por conta própria, para quem todo o dia precisa ser vencido através da negociação miúda. Esse é o estranho paradoxo de um bairro com favelas gigantescas e onde a população vive confinada diante de tiroteios frequentes, toques de recolher das milícias ou da ocupação militar – numa delas, há poucos anos, os moradores foram fichados eletronicamente pelo exército.18 Embora vivam num cotidiano onde o confinamento urbano é uma realidade, para ganhar a vida não podem se submeter ao confinamento voluntário durante a pandemia. Estranho paradoxo também de uma sobrevivência econômica sem nenhuma estrutura política por trás – a não ser a mais poderosa e objetiva de todas as instituições sociais modernas, invisível para a maior parte da sociedade porque naturalizada até a medula: o mercado. Sujeitos que, não conseguindo mais vender sua própria força de trabalho, têm agora de ganhar a vida com o risco de perdê-la.

Referências:

1 – Disponível em: https://oglobo.globo.com/mundo/latinos-sao-as-vitimas-mais-frequentes-do-novo-coronavirus-na-cidade-de-nova-york-1-24361584 Acesso em: abr, 2020.

2 – Disponível em: https://oglobo.globo.com/mundo/negros-americanos-registram-numeros-alarmantes-de-infeccoes-por-coronavirus-1-24357187 Acesso em: abr, 2020.

3 – Disponível em: https://www.latimes.com/world-nation/story/2020-04-06/more-than-half-of-chicagos-coronavirus-cases-are-in-african-american-community-city-officials-say Acesso em: abr, 2020.

4 – “Os dados de infecções por distrito, divulgados quarta-feira pelo Departamento de Saúde da cidade, mostram como o vírus está atingido com maior dureza as áreas mais humildes. Nesse dia, havia 616 casos confirmados para cada 100.000 habitantes no Queens e 584 no Bronx, em comparação com 376 em Manhattan. E dentro do Queens há dois códigos postais malditos, o 11.368, que cobre uma área chamada Corona −sim, ela tem esse nome−, e o 11.370, East Elmhurst, com menor número absoluto, mas maior incidência (12 de cada 1.000 moradores). A renda média anual dessas famílias é de 48.000 dólares (pouco menos de 257.000 reais), enquanto a renda média na cidade como um todo é de 60.000 dólares (321.000 reais), segundo os dados do censo. ” (Disponível em: https://brasil.elpais.com/sociedade/2020-04-06/nova-york-uma-historia-de-duas-pandemias.html Acesso em: abr, 2020).

5 – WACQUANT, Loïc. As duas faces do gueto. São Paulo: Boitempo, 2012, p. 22. Evidentemente, a discussão sobre segregação da famosa Escola de Chicago tem pouco que ver com o debate atual e quem insiste nisso não sabe reconhecer o caráter apologético das bases daquela teoria, que tratava a segregação prioritariamente com uma decisão voluntária.

6 – Disponível em: https://www.latimes.com/world-nation/story/2020-04-06/more-than-half-of-chicagos-coronavirus-cases-are-in-african-american-community-city-officials-say Acesso em: abr, 2020.

7- WACQUANT, Loïc. As duas faces do gueto, p. 55.

8 – Disponível em: https://edition.cnn.com/2020/03/18/politics/coronavirus-in-us-jails-heighten-concerns/index.html e https://www.democracynow.org/2020/4/15/headlines/prisoner_deaths_mount_as_coronavirus_spreads_rapidly_behind_bars?fbclid=IwAR1sT_vhhd9_SMcnqMTcBq0q5WAYXpZwZoLacAWTTSho3sjuven8_-1ZZ4U. Ver também: - https://www.em.com.br/app/noticia/internacional/2020/04/12/interna_internacional,1137861/coronavirus-avanca-em-centros-detencao-para-migrantes-nos-eua.shtml.

9 – NESIMI, Mariana dos Santos e BOTELHO, Maurilio Lima. Das favelas às prisões:

Transformações na segregação urbana no Rio de Janeiro. In: Revista Continentes (no prelo).

10 – BOTELHO, Maurilio Lima. Guerra aos vagabundos: sobre os fundamentos sociais da militarização em curso. Disponível em: https://blogdaboitempo.com.br/2018/03/12/guerra-aos-vagabundos-sobre-os-fundamentos-sociais-da-militarizacao-em-curso/.

11 – OLIVEIRA, Leandro Dias e FORTES, Alexandre. Covid-19 na Baixada Fluminense: O tsunami se aproxima. Disponível em: http://portal.ufrrj.br/covid-19-na-baixada-fluminense-o-tsunami-se-aproxima/?fbclid=IwAR2RQiX9uH-1sLIbOShhD7gkHgu04UiQ4Or1pURPX8u-ss6My0HLih1-KTo.

12 – Disponível em: https://www.ppgihd-open-lab.com/post/s%C3%A3o-jo%C3%A3o-de-meriti-%C3%A9-a-cidade-brasileira-mais-vulner%C3%A1vel-ao-alastramento-do-coronav%C3%ADrus. Acesso em: abr, 2020.

13 – NESIMI, Mariana dos Santos. Encarceramento e confinamento espacial: uma interpretação sobre o padrão de segregação urbana no município do Rio de Janeiro. Trabalho de Conclusão de Curso (Licenciatura em Geografia) - Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Seropédica, 2019.

14 – Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2020/04/coronavirus-e-mais-letal-entre-negros-no-brasil-apontam-dados-da-saude.shtml Acesso em: abr, 2020.

15 – Disponível em: https://www.nexojornal.com.br/expresso/2019/06/27/A-expectativa-de-vida-de-negros-e-brancos-nos-EUA-e-Brasil Acesso em: abr, 2020.

16 - Segundo o ministro, há “todo um isolamento próprio da população carcerária que a protege em relação ao restante da população”, portanto, “não há necessidade nenhuma, porém, de antecipar medidas que sejam desnecessárias. O que tem acontecido com esses presos infectados é o seu isolamento no ambiente carcerário”. O isolamento seria elevado ao quadrado na lógica da segregação exponencial (Disponível em: https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/politica/2020/04/13/interna_politica,844346/moro-garante-que-proliferacao-do-coronavirus-em-presidios-esta-sob-con.shtml Acesso em: abr, 2020).

17 - WACQUANT, Loïc. As duas faces do gueto, p.20. A socióloga Saskia Sassen também destacou a brutalidade do capitalismo contemporâneo que está para além de um problema de exploração: “em sua forma mais extrema, pode levar à miséria e à exclusão de cada vez mais pessoas, que deixam de ter valor como produtores e consumidores” (Expulsões: brutalidade e complexidade na economia global. Paz e Terra: São Paulo, 2016, p. 19).

18 - NESIMI, Mariana dos Santos. Encarceramento e confinamento espacial, p. 62.

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