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Para além da capital

Os eixos geográficos de dispersão da pandemia de COVID-19 no estado do Rio de Janeiro


Leandro Dias de Oliveira – Professor do PPGIHD e PPGGEO-UFRRJ

O estado do Rio de Janeiro apresenta uma condição histórica cuja análise é fundamental em tempos de pandemia. Trata-se de um estado cuja capital – a cidade do Rio de Janeiro, durante muito tempo uma cidade autônoma e capital federal[1] – concentra historicamente os investimentos econômicos, produtivos, logísticos e sociais e apresenta integração ainda restrita com interior[2]. Mesmo com o crescimento produtivo-industrial de certas áreas do interior, como os novos empreendimentos localizados na região do Médio Vale do Paraíba Fluminense (OLIVEIRA, 2008) ou da consolidação da economia do petróleo no Norte Fluminense (PESSANHA, 2017), a cidade do Rio de Janeiro permanece, por meio de suas periferias imediatas e com os eixos de contato logístico, como catalizador metropolitano, especialmente no que se refere ao atendimento das necessidades de educação e saúde.

Entendemos que, da mesma maneira, a região metropolitana também pode ser dividida geograficamente: além da capital, há uma nítida dissociação entre as cidades do Leste Fluminense – sendo a antiga capital do estado do Rio de Janeiro, Niterói, a mais importante – e Baixada Fluminense, com destaque para as cidades de Nova Iguaçu e Duque de Caxias. A própria Baixada Fluminense também apresenta diferenças, especialmente entre a baixada histórica, de origem iguaçuana e com urbanização mais densificada – que passa por uma reestruturação urbano-econômica (ROCHA, 2015), e a porção do extremo oeste metropolitano formado pelas cidades de Seropédica, Itaguaí, Paracambi, Japeri e Queimados (OLIVEIRA, 2014), além de Magé e Guapimirim, que compõem uma transição Baixada-Leste Metropolitano. O extremo oeste metropolitano apresenta características menos “urbanas” e um processo de reestruturação apoiado nos investimentos significativos que recebeu nos últimos anos por conta de novos empreendimentos logísticos e industriais. Assim, se por um lado, emergiu uma economia de “borda metropolitana” – a construção do Arco Rodoviário Metropolitano Fluminense é a evidência mais importante desse processo de construção de uma economia para além da capital e cujos aportes ocorrem especialmente nas franjas metropolitanas –, o acesso a serviços permanece centrado na capital. Tais diferenças histórico-geográficas implicam no adensamento populacional das cidades da “Baixada Iguaçuana”, tornando-as mais suscetíveis ao aumento dos casos; todavia, tais cidades de urbanização mais consolidada possuem – mesmo com precariedade em termos de leitos hospitalares e vagas em UTI – mais equipamentos médicos e leitos disponíveis, conforme nos apresenta André Rocha (2020)[3].





Mapa: A Região Metropolitana do Rio de Janeiro: capital, Leste Metropolitano e Baixada Fluminense, subdividida, além da Baixada “Histórica-Iguaçuana”, em “Transição Baixada-Leste Metropolitano” e Extremo Oeste Metropolitano


Organização e Elaboração: Laboratório Integrado de Geografia Física Aplicada (LiGA-UFRRJ) e Laboratório de Geografia Econômica e Política (LAGEP-UFRRJ) [2020]

Assim, os limites da região metropolitana do Rio de Janeiro se tornam fluídos, fazendo com que suas fronteiras se tornem verdadeiro propagadores do desenvolvimento econômico. Nesta mesma seara, as rodovias principais do estado se tornam eixos geográficos de expansão metropolitana, conectando-a com a Região do Médio Vale Paraíba Fluminense, com destaque econômico para a cidade de Volta Redonda; a Região dos Lagos (ou Baixadas Litorâneas), onde se sobressai Cabo Frio; e mesmo o Norte Fluminense, com destaque para a cidade de Campos dos Goytacazes. Expressando características metropolitanas a partir da influência e força da capital, na realidade existem diferentes graus de integração a metrópole por todo o estado do Rio de Janeiro.

Neste sentido, a dispersão do coronavírus na realidade não deixa de ser uma lição de geografia econômica da metrópole, afinal, os mesmos sentidos de metropolização em quaisquer atividades econômicas tradicionais também parecem reverberar nos processos de espraiamento geográfico de contaminação da COVID-19 no estado. O mapa a seguir, produzido pelo Laboratório Integrado de Geografia Física Aplicada (LiGA) da UFRRJ, apresenta os números de contaminação do estado do Rio de Janeiro expostos sobre a malha rodoviária federal, portanto, destacando as principais estradas federais no estado do Rio de Janeiro.



Mapa 2: Número de contaminados e eixos rodoviários e de dispersão do coronavírus

Organização e Elaboração: Laboratório Integrado de Geografia Física Aplicada (LiGA-UFRRJ), 2020.


De maneira geral, os eixos rodoviários – federais, mas também os estaduais – revelam as vias de propagação da COVID-19 no estado do Rio de Janeiro[4]. As cidades que polarizam as atividades regionais – que também são aquelas com maior população e centros urbanos mais robustos – também devem apresentar maiores casos de contaminação e de óbitos no interior do estado. Volta Redonda (com 121 casos oficiais, sempre destacando as expressivas subnotificações), Cabo Frio (8), Campos dos Goytacazes (6), Macaé (20), Angra dos Reis (8), entre outras, se tornam progressivamente polos propagadores do coronavírus.

O caso de Volta Redonda é emblemático: além de ser uma cidade de classe média substantiva, com o centro comercial regionalmente mais importante, de abarcar muitos trabalhadores da cidades vizinhas – especialmente pelo papel histórico da companhia Siderúrgica Nacional (MOREIRA, 2003) –, e ainda apresentar número bastante elevado de pessoas com problemas respiratórios, devido à presença da própria Usina Presidente Vargas (nome da planta industrial da CSN na cidade)[5], a cidade se situa justamente no eixo Rio-São Paulo, no caminho da Rodovia Presidente Dutra (BR-116)

O contato metropolitano entre as mais importantes cidades do país, Rio de Janeiro e São Paulo, é algo de relevo desde que Getúlio Vargas, então Presidente da República, decidiu pela construção da CSN no então oitavo distrito de Barra Mansa, Santo Antônio de Volta Redonda, ainda na década de 1940 (OLIVEIRA, 2006). A Rodovia Presidente Dutra, construída apenas em 1951, se consolidou como a mais importante economicamente da Brasil e é por onde circula grande parte das mercadorias produzidas entre as duas metrópoles nacionais. Essa grande configuração metropolitana constitui uma potente economia macrorregional, cujas densidades técnicas, produtivas, logísticas e estratégicas formam, nas palavras Sandra Lencioni (2014), uma verdadeira “nebulosa metropolitana”, que permanece em expansão geográfica. Volta Redonda, em meio a este cenário, continua até o presente momento atrás somente da capital e de Niterói em número de contaminados.

Com tamanha centralidade na capital, as preocupações acerca da disponibilidade de equipamentos médicos, da logística hospitalar, da estrutura de acolhimento e mesmo da capacidade de triagem e atendimento nos casos mais graves da COVID-19 são muito significativas, tanto nas periferias imediatas da metrópole quanto no interior. É tradição no estado do Rio de Janeiro procurar a capital para resolução que casos mais graves de saúde; portanto, é justamente no momento em que se necessita de maior espraiamento dos serviços públicos médico-hospitalares é que se revelam as graves diferenças e a imensa segregação entre capital e interior, e mesmo entre capital e seu entorno imediato.

Referências:

DAVIDOVICH, Fani Raquel. Estado do Rio de Janeiro: singularidades de um contexto territorial. Território, Rio de Janeiro: LAGET/UFRJ, nº9, p.9-24, jul-dez.2000. Disponível em: http://www.laget.eco.br/pdf/09_2_davidovich.pdf. Acesso em: 17 de abril de 2019.

LENCIONI, Sandra. Urbanização difusa e a constituição de megarregiões: O caso de São Paulo-Rio de Janeiro. E-metropolis: Revista Eletrônica de Estudos Urbanos e Regionais, ano 6, n.º 22, setembro de 2015. Disponível em: http://www.emetropolis.net/index.php?option=com_edicoes&task=artigos&id=132&lang=pt. Acesso em: 17 de abril de 2019.

LESSA, Carlos. O Rio de todos os brasis: uma reflexão em busca de autoestima. Rio de Janeiro/São Paulo: Editora Record, 2000.

MOREIRA, Ruy (org.). A reestruturação Industrial e Espacial do Estado do Rio de Janeiro. Niterói: GERET/NEGT/GECEL, 2003.

OLIVEIRA, Floriano José Godinho. Reestruturação produtiva, território e poder no Rio de Janeiro. Editora Garamond-Faperj, Rio de Janeiro, 2008.

OLIVEIRA, Leandro Dias de. A Construção do Desenvolvimento Sustentável na Cidade de Volta Redonda: Um Estudo sobre Reestruturação do Território e Ideologia, 2006. Dissertação (Mestrado em Geografia). Departamento de Geografia do Instituto de Geociências, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2006.

OLIVEIRA, Leandro Dias de. A emersão da região logístico-industrial do Extremo OesteMetropolitano fluminense: reflexões sobre o processo contemporâneo de reestruturação territorial-produtiva”. In: Espaço e Economia: Revista Brasileira de Geografia Econômica, ano IV, n. 7, julho-dezembro de 2015. Disponível em: http://journals.openedition.org/espacoeconomia/1814. Acesso em: 17 de abril de 2019.

PESSANHA, Roberto Moraes. A relação transescalar e multidimensional “Petróleo-Porto” como produtora de novas territorialidades. Tese (Doutorado em Políticas Públicas e Formação Humana), Centro de Educação e Humanidades, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 2017. Disponível em: http://ppfh.com.br/wp-content/uploads/2018/05/Tese-NORMALIZADA-site.pdf. Acesso em: 17 de abril de 2019.

RIBEIRO, Miguel Angelo. Estado do Rio de Janeiro: das capitanias hereditárias à uma nova divisão regional. Geo UERJ, Rio de Janeiro, n. 31, p. 249-279, 2017. Disponível em: file:///C:/Users/Prof.%20Leandro%20Dias/Downloads/32064-107038-1-PB.pdf. Acesso em: 17 de abril de 2019.

ROCHA, André Santos da. Os efeitos da reestruturação econômica metropolitana na Baixada Fluminense: Apontamentos sobre o “novo” mercado imobiliário da região. Espaço e Economia: Revista Brasileira de Geografia Econômica, ano III, n. 6, janeiro-junho de 2015. Disponível em: http://journals.openedition.org/espacoeconomia/1677. Acesso em: 17 de abril de 2019.

ROCHA, André Santos da. “Nada é tão ruim que não possa piorar”: A COVID-19 e as políticas de saúde na Baixada. OpenLab / PPGIHD-UFRRJ, 2020. Disponível em: https://www.ppgihd-open-lab.com/post/nada-%C3%A9-t%C3%A3o-ruim-que-n%C3%A3o-possa-piorar. Acesso em: 17 de abril de 2019.

[1] Após a construção de Brasília e consequente transferência da Capital Federal na década de 1960, a cidade do Rio de Janeiro transformada numa cidade-estado com o nome de Guanabara. Somente no ano de 1975 ocorreu a fusão com o antigo estado do Rio de Janeiro, tornando a cidade capital estadual. Consultar, entre outros: LESSA, Carlos. O Rio de todos os brasis: uma reflexão em busca de autoestima. Rio de Janeiro/São Paulo: Editora Record, 2000. [2] A fusão, conforme realizada, não impediu que se consolidasse a ausência de integração e identidade entre a capital e o interior (DAVIDOVICH, 2000; RIBEIRO, 2017). [3] Consultar: https://www.ppgihd-open-lab.com/post/nada-%C3%A9-t%C3%A3o-ruim-que-n%C3%A3o-possa-piorar. Acesso em 20 de abril de 2020. [4] Algo semelhante também foi avaliado no estado de São Paulo. Consultar: https://saude.estadao.com.br/fotos/geral,mapa-elaborado-pela-unesp-mostra-a-distribuicao-do-virus-no-estado-de-sao-paulo-ao-longo-dos-eixos-rodoviarios,1088341. Acesso em: 17 de abril de 2020. [5] Consular a contribuição de Fabio Rossi, “Volta Redonda: Números da pandemia de COVID-19”, disponível em: https://www.ppgihd-open-lab.com/post/volta-redonda-n%C3%BAmeros-da-pandemia-de-covid-19. Acesso em 17 de abril de 2020.

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