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PANDEMIA, UMA RESPOSTA TRANSDISCIPLINAR

Hernán Ramírez (Unisinos/CNPq)


Porque la filosofía quiere crear claridad mediante la descripción, se ocupa de problemas, y no de un problema.

No se trata de perseguir ante todo la exactitud y claridad absoluta sino la transparencia del conjunto. A nuestra gramática le falta transparencia en el todo, la capacidad de ver interrelaciones.

Ludwig Wittgenstein

(Investigaciones Filosóficas)

Hegel falava que a coruja de Minerva só levantava voo ao entardecer, mas existem situações que premem pela antecipação das respostas por parte da ciência. Parece ser a atual conjuntura um momento em que isso seja necessário. De todo modo, as velocidades não parecem estar em sintonia, inclusive o fato de termos fatiado o conhecimento científico nos leva a não ter uma dimensão nítida do fenômeno, que aos poucos começa a clarear.

Pelo que se conhece até o momento, a presente pandemia se originou no mundo do biológico, mas alguns levantam a suspeita de ter passado ao mundo dos humanos pela invasão que se fez do hábitat natural. Igualmente, comprova-se que ela afetou de modo fatal à humanidade como um todo, inclusive potenciada pelos seus comportamentos presentes e pretéritos. E, é mais, suas consequências devastadoras serão sentidas por um longo período, levando a alguns a acreditar que já exista uma mudança radical em curso no mundo contemporâneo.



Assim, ela deixa de ser uma resposta apenas de uma área específica e passa a nos envolver como um todo. Se a conexão com as áreas da saúde, da biologia e das engenharias, por causa do desenvolvimento e da transferência tecnológicas, parecem ser as mais evidentes; a relação que se estabelece com as ciências humanas também é visível. Já temos visto como diferentes regimes políticos lidam de modo distinto com o fenômeno e isso acarreta impactos de monta, que também devem ser explicados e antecipados.

Portanto, uma abordagem transdisciplinar é ineludível, só desta forma poderemos compreender como ela se gerou, propagou tão rapidamente e os efeitos que poderá causar, no curto, médio e longo prazo. Quando este texto se escreve, Estados Unidos já são o centro do fenômeno, com o estado de New York como seu ponto álgido. Deste modo, comprovamos que, como em outras pandemias da era moderna, a atual se propaga pelas vias de comunicação existentes e ataca, de modo preferente, aqueles pontos de maior movimentação humana, embora depois se alastre para outros cantos do planeta. Não é estranho que América Latina ainda esteja menos afetada, assim como a África, que sofrerá por último suas consequências.

Igualmente temos visto que diversos fatores fazem que ela se retarde ou propague com maior facilidade, alguns são de ordem natural, outros sociais. Comportamentos culturais ancestrais ou introduzidos mais recentemente, modos de se organizar social e politicamente, os arranjos internos às forças econômicas, sociais e políticas provocam feitos diversos em cada região afetada, bem como as disputas que elas travam entre si, seja no campo do econômico, social, político e ideológico em sentido amplo. Observações que agora brotam com maior força e já se embasam de modo teórico.

Deste modo, qualquer abordagem isolada será seguramente relevante, mas talvez insuficiente para entendermos o desafio científico, social e político que este fenômeno nos apresenta, não apenas em custos humanos, que são perdas irreparáveis, mas também nas consequências que já traz para a economia e a transformação da vida social. Devemos lembrar que isto não é apenas um imperativo da saúde, pois, o mundo já viveu pandemias em outros períodos históricos. Mas, vários se apressam a destacar que muitos desses flagelos também provocaram impactos nocivos à vida social. Algumas dessas vocês apontam a Gripe Espanhola como fator importante no engendramento do fascismo, pois, ao contrário de promover um mundo mais humano, gerou um sentimento de medo e desconfiança do outro.



Em tal sentido, alguns apontam preliminarmente a invasão dos ecossistemas como possível causa, então, se na origem essa relação entre o mundo natura e social está já inscrita, no prospecto ela resulta mais do que evidente. O mundo experimentou uma cisão da vida, inclusive a ciência também e, muitas vezes pode ter potenciado tal quebranto. De todo modo, parafraseando Marx, se todo sistema gera sua própria contradição, também dele emerge a sua superação.

Nascida única, a ciência foi quebrada em inúmeros pedaços, cada vez mais pequenos e potentes para entender uma parte, mas incapaz de debelar o todo na sua plenitude. Assim, para tentar dar solução a esse paradoxo, surgiram propostas que se impuseram como objetivo encontrar uma solução que pudesse aproveitar melhor os benefícios da especialização e minimizar seus impactos nocivos. A teoria da complexidade nos trazia de novo aquela noção única da ciência, à vez que a transdiciplinariedade era apresentada como seu método.

Hoje, a ciência está em situação invejável. Temos acumulado um basto conhecimento, inclusive ele está disponível numa escala nunca antes tida, através da Big Data e das Digital Humanities. Pode ser esta uma grande oportunidade na qual a cooperação transdisciplinar seja não apenas possível, mas o método mais eficaz para entender e lidar com um fenômeno dessa magnitude e complexidade.

Sem entrar no mérito das ciências da saúde, biológicas e as engenharias, para me concentrar naquela área com melhor domínio. A filosofia nos serve para sistematizar teorias e lapidar métodos, dentre os quais a Teoria da complexidade e as propostas transdisciplinares, mas também diversas abordagens, em especial as éticas e do modo como se articula o embate no campo científico.

A História nos oferece também um ponto privilegiado para a análise, pois o tempo se transforma numa variável chave. Ele nos permite entender melhor cada conjuntura, assim como possíveis comparações com casos semelhantes em outros períodos históricos. Mas, o tempo histórico não se remete apenas ao passado. Com procedimentos de História em Trânsito podemos lidar melhor com esse objeto que ainda se desenvolve, que partiu do presente, mas que já deixou um passado e, pior ainda, se projeta ameaçadoramente para o futuro.

As Ciências Sociais como um todo aportam também elementos que se juntam à análise. Elas resultam inelidíveis para compreender as estruturas que conformam a base, assim como as clivagens que mitigam ou potenciam o efeito devastador da Pandemia. Os Atores não possuem os mesmos interesses e comportamentos, e a doença também pode ser uma arena de embates. Conflitos que não apenas se travam em torno da ciência, falsamente neutra, mas de interesses materiais, sociais e políticos. Na final das contas, também isso pertence ao ideológico, com lutas que se entabuam igualmente no terreno simbólico.

Para finalizar, acredito que estejamos igualmente de uma oportunidade única para retornar a outra condição perdida do intelectual. Anos de domesticação sistêmica nos transformaram em meros tecnocratas do conhecimento, que produzíamos para nós mesmos e para satisfazer a burocracia do campo. A maioria esqueceu, inclusive de modo cúmplice, a vinculação com o seu tempo, com a base que lhe dá sustentação.

De todo modo, uma situação como a presente veio para chacoalhar essa apatia. A pulsão da vida nos colocou na roda novamente e, talvez, nos trouxe um ponto positivo. Longe de nos penalizarmos por perder a nossa objetividade, quiçá este seja momento de aproveitar ao máximo a oportunidade de mergulhar no emic, categoria de Raymond Williams proposta para aproveitar a a relação dialógica com o objeto. Pois toda aproximação é um recorte subjetivo. Assim como Walter Benjamin propusera, só quando esteja completamente contaminada de objeto, a ciência se tornará imbatível, compondo uma gramática do todo.

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