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NA BAIXADA, A MAIORIA DOS INFECTADOS COM COVID-19 SÃO ADULTOS TRABALHADORES

Prof. Dr. André Santos da Rocha

[Departamento de Geografia / PPGGEO – UFRRJ]



Ao passo que no Brasil a letalidade pelo novo coronavírus supera a casa das 5 mil mortes, já é possível traçar quem são os maiores impactados pelo vírus. Na última semana a Baixada Fluminense, periferia metropolitana do Rio, também registrou um avanço da contaminação da Covid-19. Conforme apontado por Alexandre Fortes[1], a região superou pela primeira vez a Zona Sul do Rio de Janeiro em número de casos. Rompe a então ideia de que o vírus pertencia a uma elite globalizada e viajada, afetando, aparentemente, apenas os ricos ou uma classe média alta, circulantes em espaços enobrecidos e de glamour turístico, passando a alcançar os citadinos, em geral trabalhadoras [formais e informais] e moradoras das periferias.

Desde o dia 20 de março de 2020, dia que foi reconhecida a transmissão comunitária no Brasil pelo ministério da saúde[2], já se tinha ideia de quem seriam os principais afetados e como isso poderia ser letal aos contaminados, por consequência da ausência de políticas públicas de Saúde precárias, como é o caso da Baixada - marcada pela escassez de leitos de UTI’s e equipamentos médicos, abaixo do recomendado pela OMS[3].

Uma análise minuciosa do perfil dos contaminados entre os 11 de março e 24 de abril de 2020[4], feito a partir dos dados disponibilizados pela Secretaria Estadual de Saúde, foi possível identificar o perfil etário doa infectados com a Covid-19 na Baixada Fluminense. Verificou-se que unanimemente em todos os municípios da Baixada, os mais infectados são aqueles contidos entre 30 e 59 anos, que claramente fazem parte da População Economicamente Ativa (PEA)[5], ou seja, o adulto trabalhador [Veja os Gráficos das duas maiores cidades de Baixada: Nova Iguaçu e Duque de Caxias].

Para a análise, o levantamento dos infectados foi concebido no enquadramento entre três diferentes perfis etários: 0-29 anos ;30-50 anos; e acima de 60 anos. Em seu conjunto o perfil entre 30 e 59 anos corresponde a maior percentual dos infectados. Outros perfis, que enquadrariam pessoas mais “jovens e Idosos” apresentam algumas poucas variações.

No caso de Nova Iguaçu, foram identificados até o momento da tabulação 150 casos, desde total 110 casos (73%) pertencia a faixa etária do adulto trabalhador entre 30 e 60 anos. Acima de 60 anos representam um universo de 22casos (17%) e menores que 29 anos 18 casos (12%). Em Duque de Caxias foram tabulados 123 casos, sendo entre a população adulta trabalhadora 73 casos (53%), enquanto faixa etária acima de 60 anos foi de 37casos (30%), e menores que 29 anos foram contabilizados 13 casos (11%). Vale destacar que grande parte dos infectados na faixa etária mais jovem, está com a média de idade superior a 14 anos de idade. Demonstrando, que a população mais infectada é aquela que ainda está transitando pelas ruas das cidades, que possui algum ofício. É aquela, que por força maior, ainda está em atuação laboral, seja informal ou informal.





A leitura dos gráficos permite ver que além da contaminação prevalecer entre a População adulta, ela marca a disseminação nos centros econômicos destes municípios. Isso evidencia uma dupla geografia: a das centralidades e do trabalho. É a partir destes centros que há uma disseminação interna pelos territórios destes municípios. Mesmo que os centros das cidades da Baixada estejam fechados, há uma vida pulsante em seus bairros sub-bairros. O Comércio local funciona trabalhando intensamente. Esses são subcentralidades econômicas que animam o cotidiano destas cidades e dialogam diretamente com suas áreas centrais, servindo assim de espaços de disseminação do vírus e de sociabilidade em tempos de quarentena.

Vale destacar que Nova Iguaçu, decretou fechamento do centro econômico em 22 de março de 2020. Já Duque de Caxias demorou criar medidas de contenção das atividades em sua área central. O prefeito do município só decretou o fechamento em 3 de abril de 2020, após a confirmação da primeira morte por Convid-19, que foi de um homem de 53 anos, enquadrado na faixa etária que mais é infectada na região.

É importante indicar que o dado relativo à localização interna nos municípios foi descontinuado. Assim, o apagão dos dados se reforça e impedem uma leitura mais afinada para desenvolver políticas públicas de combate ao COVID-19. Além disso, no período de coleta de dados, identificamos inúmero de casos onde a localização foi ignorada. Isso também ocorre com a faixa etária e a data de infecção.

Neste sentido, o poder público necessita apresentar informações substanciais sobre os locais de contaminação com a devida precisão. A escalada do número de casos e o disparate da taxa de mortalidade do vírus torna evidente o apagão de dados. As informações devem ser divulgadas com clareza afim de informar a sociedade, e apoiar a construção de políticas com inteligência territorial.

No momento em que se aventa a flexibilização da quarentena e a reabertura do comércio local, se tornam essenciais essas informações, para não ampliar o colapso eminente do sistema de saúde e a letalidade da doença. O fato de a população adulta e trabalhadora ser a mais infectada indica a necessidade de medidas que cooperem com a vida dessa população, o "grupo em risco”: o Adulto Trabalhador. Seja na agilização da transferência de renda e cuidados em seus locais de moradia. Seja em políticas de cuidados destes profissionais em seus locais de trabalho, com a devida segurança sanitária.

[1] https://www.ppgihd-open-lab.com/post/covid-19-baixada-ultrapassa-zona-sul-em-n%C3%BAmero-de-casos . Data do Acesso 29/04/2020 [2] https://www.saude.gov.br/noticias/agencia-saude/46568-ministerio-da-saude-declara-transmissao-comunitaria-nacional. Data do Acesso 30/04/2020 [3] https://www.ppgihd-open-lab.com/post/nada-%C3%A9-t%C3%A3o-ruim-que-n%C3%A3o-possa-piorar [4] Os dados foram organizados pela equipe de apoio de Dados sobre o COVID-19 do LAGEP, que é composta por: Juliana Borges Ferreira, Jhonatan Bento da Silva, Maria Fernanda Gomes Arcanjo e Pedro Ferreira Duarte Neto – discentes do curso de Relações Internacionais/UFRRJ; Bruno Luis de Souza Felix dos Santos e Camila Gonçalves dos Santos – discentes do curso de Geografia- IA/UFRRJ; e Vanessa Ferreira Andrade – discente do Geografia UERJ- Maracanã. A qual agradecemos imensamente pelo trabalho realizado. [5] O PEA [População Economicamente Ativa] corresponde ao grupo de pessoas que estão em atuação laboral e a procura de empregos. No censo demográfico de 2010, o IBGE considerou A PEA é composta pelas pessoas de 10 a 65 anos de idade que foram classificadas como ocupadas ou desocupadas na semana de referência da pesquisa. Para Mais detalhes ver < http://www.metadados.geo.ibge.gov.br/geonetwork_ibge/srv/por/metadata.show?id=17966&currTab=simple> Acesso em 02/05/2020.

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