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Dinâmica socioespacial da COVID-19 na cidade do Rio de Janeiro e na Baixada Fluminense


Depto de História, IM-UFRRJ


As projeções referentes à evolução da pandemia de COVID-19 em diversas partes do mundo vêm sendo atualizadas diariamente com base na análise de uma série de fatores e no refinamento dos modelos estatísticos utilizados.

No Brasil, a fragilidade dos dados, resultante da baixa aplicação de testes e da subnotificação, tem criado uma falsa percepção tanto da dimensão do problema quanto do ponto da curva epidêmica em que nos localizamos no momento.

Certos segmentos políticos e sociais chegam a afirmar, na contramão do consenso da comunidade científica, que o pico da epidemia está prestes a ser atingido e que é necessário planejar a retomada das atividade normais.

Os 24.232 casos confirmados até o momento representam apenas 114 infectados por milhão de habitantes, e os 1.378 mortos são apenas 6 por milhão de habitantes.

Considerando as tendências internacionais, é inimaginável que esses números representem algo remotamente próximo ao auge da pandemia no Brasil.

Na verdade, estima-se que o número real de casos atuais já seja de doze a quinze vezes maior do que o oficialmente registrado, ou seja, entre 235 e 313 mil casos.

O número de mortos pela COVID-19, por sua vez, só será avaliado adequadamente a posteriori, quando for possível comparar os óbitos de cada mês deste ano com as médias históricas do país, já que não está sendo possível testar e/ou processar os exames referentes a todas os mortes suspeitas.

Entretanto, por mais incompletos e imprecisos que sejam os dados disponíveis, eles podem servir como indicadores preciosos de tendências, particularmente quando são desagregados e analisados levando em consideração a expressão territorial das desigualdades sociais.

Consideremos, por exemplo, a Região Metropolitana do Rio de Janeiro.

Os painéis de dados atualizados pelas secretarias de saúde do estado e do município do Rio de Janeiro oferecem informações sobre a distribuição dos casos e óbitos por municípios, bairros e regiões administrativas.

Nós, do OpenLab do PPGIHD, em parceria com o Laboratório de Geografia Física Aplicada do DeGeo-UFRRJ temos buscado integrar os dados da Baixada Fluminense e criar instrumentos para a sua análise.

Numa primeira postagem sobre o tema, indicamos algumas hipóteses que orientam nosso trabalho. Destacamos que o principal vetor da chegada da pandemia na capital do estado foi o que chamamos de "elite globalizada", a parcela minoritária da população que possui alta renda, viaja com certa regularidade ao exterior e tem mais contato com estrangeiros.

Isso pode ser demonstrado pela distribuição espacial dos casos ainda hoje, cerca de um mês após a implementação das primeiras medidas de isolamento social.



Os casos confirmados na capital até o momento ainda se concentram na Área de Planejamento 2, que congrega a Zona Sul e Grande Tijuca, particularmente na AP 2.1, composta pelos bairros oceânicos como Leblon, Ipanema e Copacabana. Em segundo lugar, vem a AP 4, que inclui Barra e Jacarepaguá.

A disparidade entre o índice de casos confirmados por 100 mil habitantes nas várias APs é impressionante, variando de 85,61 na AP 2 para apenas 12,14 na populosa AP 5 (Campo Grande, Bangú, Santa Cruz, etc.), cujo perfil socioeconômico se assemelha em muito ao dos municípios da Baixada.



Há duas explicações possíveis para a persistência dessas disparidades: 1) os índices de subnotificação são maiores nos bairros mais pobres; 2) o isolamento mais efetivo nos bairros de elite está retardando o avanço da pandemia na periferia.

Ou seja, é possível que a redução do contato da classe média alta que concentra o maior percentual de infectados com os trabalhadores dos setores de comércio e serviços que residem nos bairros e municípios periféricos esteja reduzindo a velocidade de difusão do vírus no conjunto da Região Metropolitana.

Entretanto, qualquer que seja a proporção na combinação desses dois fatores (subnotificação e isolamento social), a multiplicação exponencial do número de contaminados das áreas com condições de vida mais precárias da Região Metropolitana é apenas uma questão de tempo.

Tempo, na verdade, é um elemento de altíssimo valor nas estratégias de combate à COVID-19. Ampliar a capacidade de testagem e atendimento e diluir o número de casos graves num período mais longo para evitar o colapso do sistema de saúde são, no momento, os principais objetivos dos gestores do sistema de saúde em todo o mundo.

Resta saber o quanto a Baixada Fluminense terá condições de aproveitar esse tempo.

Numa postagem anterior aqui no nosso blog, o professor André Santos da Rocha já analisou a precariedade da região em termos de leitos hospitalares e vagas em UTI.

Uma nota técnica assinada por pesquisadores da ENSP-Fiocruz sobre "Limites e possibilidades dos municípios brasileiros para o enfrentamento dos casos graves de COVID19" lista apenas Duque de Caxias, Nilópolis e Itaguaí, dentre os treze municípios da Baixada Fluminense como parte do conjunto que possui o mínimo necessário de "estrutura hospitalar para o enfrentamento da covid-19".

Embora algumas iniciativas importantes estejam sendo adotadas para fortalecer a capacidade de atendimento, ao menos no município de Nova Iguaçu, é difícil saber se elas serão suficientes uma vez que o número de infectados se ampliar de forma suficiente para gerar a dinâmica de "expansão acelerada" na região.

Cabe ressaltar que, embora em números absolutos os 359 casos confirmados na região ainda estejam muito distantes dos 2322 da capital, o gráfico abaixo, referente à proporção entre casos e população, já indica, no intervalo de uma semana, uma tendência à aproximação da ordem de grandeza entre esses dois segmentos da Região Metropolitana.



Indicadores pré-existentes de saúde na Baixada contribuem para acentuar a preocupação com o impacto da pandemia na região.


A mortalidade infantil média nos treze municípios é de 15%, acima da média nacional de 12,4% e do índice da capital, de 11,2%. Em Nilópolis, ele chega a 21%.

Já a taxa de internações por diarréia na Baixada é três vezes superior à da capital do estado e do país. Em Belford Roxo, terceiro município mais populoso da Baixada, ela atinge o dobro da média da região.

Esse fatores não tem correlação direta com a COVID-19, mas indicam a precariedade das condições de habitação, acesso a água corrente e saneamento, que devem ter forte influência na dificuldade de conter a circulação do coronavírus.

Já a presença de uma doença respiratória como a tuberculose entre a população afetará diretamente a proporção de casos graves e de óbitos por COVID-19

O índice de casos de tuberculose por 100 mil habitantes registrado no ano de 2018 indica uma situação mais grave na capital do estado, uma média certamente influenciada pelo fato dela abrigar alguns dos maiores focos da doença no país, comunidades que, assim como a Baixada, ainda não foram plenamente atingidas pela pandemia atual.

Entretanto, os 95 casos de tuberculose por 100.000 habitantes da Baixada no mesmo ano, embora significativamente abaixo do índice da capital, ainda assim representam 2,5 vezes a média nacional.

Em síntese:

  1. Mesmo sabendo que os dados oficiais atuais são subestimados, está claro que, até o momento, a COVID-19 na Região Metropolitana do Rio de Janeiro se concentra em áreas de melhor renda e maior acesso a serviços de saúde;

  2. O isolamento social razoavelmente efetivo da classe média carioca pode estar contribuindo para proporcionar um tempo precioso aos gestores públicos na preparação para enfrentar o pico da pandemia;

  3. Os índices relativos a condições sanitárias na Baixada Fluminense (e, provavelmente, na parte do município do Rio de Janeiro ainda pouco atingida pelo contágio) apontam para um cenário de imensa gravidade à medida que se estabeleça a dinâmica de "expansão acelerada" nesses locais.


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