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Dimensões Socioeconômicas da COVID-19 na Região Metropolitana do Rio de Janeiro: Panorama preliminar

Atualizado: Mai 20

Prof. Álvaro Pereira do Nascimento, Adrianno Oliveira Rodrigues, Robson Dias da Silva, Georges Gerard Flexor e Alexandre Fortes

Instituto Multidisciplinar, Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (IM-UFRRJ)



De que formas a pandemia de COVID-19 está afetando a vida da população da Região Metropolitana do Rio de Janeiro em geral e da Baixada Fluminense em particular?


Essas informações são fundamentais para subsidiar as ações dos poderes públicos, das organizações não-governamentais e dos movimentos sociais na definição das melhores iniciativas para enfrentar os problemas socioeconômicos gerados ou agravados pela COVID-19.


Visando contribuir nesse sentido, elaboraramos o questionário "Dimensões Socioeconômicas da COVID-19 na Região Metropolitana do Rio de Janeiro”. Ele ficou disponível para preenchimento online entre 22 de abril e 10 de maio de 2020, e a divulgação foi feita via redes sociais. Mais de 2.469 moradores da Região Metropolitana enviaram suas respostas, sendo que destes pouco mais da metade, 1.297 vivem na Baixada Fluminense.


É importante alertar para o fato de que, em função das limitações da forma de levantamento das informações, essa amostragem não corresponde diretamente ao perfil estatístico da população da região metropolitana. Os níveis de escolaridade e de renda, por exemplo, são bem mais elevados entre aqueles que responderam ao questionário quando comparados à média da população. Há também uma diferença expressiva na participação no que diz respeito a gênero. Cerca de dois terços das respostas foi dada por mulheres.


Essa particularidade da amostra indica a necessidade de contextualizar os percentuais registrados em cada resposta abaixo. Numa fase seguinte de análise, porém, será possível verificar se elas variaram significativamente entre os diversos extratos da amostra ou não. As observações registradas abaixo, portanto, oferecem apenas um primeiro panorama geral do que foi possível verificar com esse instrumento.


Baixada Fluminense: Semelhanças e contrastes com o restante da Região Metropolitana


Daremos destaque aqui aos dados referentes à Baixada Fluminense, usando eventualmente os dados referentes à Região Metropolitana como um todo para efeitos comparativos.


Os gráficos incluídos abaixo para efeito de ilustração dos dados, portanto, referem-se todos à Baixada.


Dentre os moradores da Baixada Fluminense que responderam à pesquisa, predomina a faixa de renda familiar entre R$ 3.000,00 e R$ 5.000,00 (21%). Agrupando-se todos os segmentos abaixo de R$ 3.000,00 chega-se a 54,7%. Considerando o conjunto da Região Metropolitana, a pesquisa alcançou predominantemente um universo de renda mais elevada, sendo que a maior faixa (acima de R$ 7.000,00) foi a mais indicada (26,4% das respostas) e a soma de todas as faixas acima de R$ 3.000,00 chega a 57,7%.


A auto-identificação racial dos morados da Baixada registra 44% de branco(a)s, 39% de pardo(a)s, 16,5% de preto(a)s, 0,4% de indígenas e 0,1% de Asiático(a)s. Há aqui uma diferença expressiva em relação às respostas da região metropolitana como um todo, nas quais 52,7% se identificou como branco(a).


Portanto, mesmo sem ter sigo gerada a partir de amostras estatísticas proporcionais aos perfis sociais dos diferentes locais de moradia, o universo de respostas captou em alguma medida a expressão geográfica das desigualdades sociais na Região Metropolitana. Verificasse a expressiva desvantagem da Baixada no que diz respeito ao padrão de rendimentos, num claro imbricamento entre classe e raça, visto que se associa diretamente a uma maior proporção de população negra na região.



Em termos ocupacionais, a pesquisa alcançou predominantemente funcionários públicos (29,2% do total, 24,3% na Baixada) e trabalhadores do setor formal (22,5% no total, 23% na Baixada), que a princípio estão entre os segmentos menos vulneráveis do mercado de trabalho. Ainda assim, 69,2% da amostra geral e 72,9% das respostas referentes à Baixada indicaram que o seu trabalho foi afetado de alguma forma pela pandemia, e todos indicaram queda na renda familiar, que se concentrou (36,9 % do total e 38,9% para a Baixada) na faixa de 20 a 50%. No caso da Baixada, a redução de renda foi de mais de 50% para 38,2%, e ficou acima de 75% para 17,9% . Os percentuais são similares na amostra total (38% perdeu mais de 50% e 17,2% mais de 75%), mas há que recordar que a faixa de rendimentos original, no caso da Baixada, é em média bastante inferior.




Apesar dessa expressiva queda nos rendimentos em toda a Região Metropolitana, 78,1% dos entrevistados (74,6% no caso da Baixada) declarou apoiar o isolamento social. Esse posicionamento possivelmente está associado ao alto índice de escolaridade da amostra, já que 58,9% (47,4% no caso da Baixada) declararam ter ensino superior completo e 22,3% (27,7% na Baixada) ensino superior incompleto. O maior acesso à informação também pode explicar a adesão a medidas de prevenção, com destaque para o uso de máscaras sempre (40,7% no total, 35% na Baixada) ou frequentemente (27,5% no total, 27,4% na Baixada).





Mas a opinião majoritariamente favorável às medidas de isolamento também pode estar associada à presença de uma (33,2% tanto no geral quanto na Baixada) ou mais (38% no total, 41% na Baixada) pessoas com fatores de risco no núcleo familiar, e agravada pelo alto percentual daqueles que não possuem plano de saúde complementar (27,6% no total, 37,2% na Baixada).




Essa primeira rodada de aplicação do questionário incluiu diversas outras perguntas, e as análises das respostas serão divulgadas em breve em novas postagens.


A próxima etapa de análise dos dados envolverá o cruzamento dos diferentes perfis dos entrevistados com as opiniões e comportamentos referentes às medidas de prevenção no combate à pandemia. Com isso, poderemos ter uma noção mais clara do impacto socioeconômico inicial da COVID-19 sobre segmentos com diferentes graus de vulnerabilidade.


Também será realizada uma comparação mais detalhada entre as respostas oriundas da Baixada Fluminense e de cada uma das outras partes da região metropolitana, a fim de verificar se há diferenças significativas que demandem análises adicionais.


Uma nova rodada de aplicação do questionário será realizada no final de junho a fim de verificar a evolução da situação no que diz respeito ao impacto da pandemia sobre a renda , as condições de vida e as atitudes em relação ao combate à pandemia.

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