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COVID-19 na Baixada Fluminense: Óbitos indicam aceleração

Prof. Alexandre Fortes, UFRRJ


Os docentes da UFRRJ envolvidos nos diversos projetos congregados no OpenLab têm buscado identificar as tendências em relação à pandemia de COVID-19 na Baixada Fluminense, apesar da precariedade e atraso dos dados disponíveis.

Conforme já destacamos em postagens anteriores, grupos de pesquisa altamente especializados em diversos países dedicam-se atualmente a analisar a relação entre o número de casos confirmados e a quantidade de pessoas efetivamente infectadas pelo novo coronavírus. 

No Brasil, estima-se que a parcela da população contaminada seja entre cinco e dez vezes maior do que a atualmente captada pelas estatísticas. Quanto maior a precariedade dos sistemas públicos de saúde, maior tende a ser essa diferença.

O número de óbitos causados pela COVID-19, que oferece um indicativo mais seguro sober a dimensão real da pandemia em cada local, também é afetado pela demora na confirmação das causas mortis e, particularmente, pela dificuldade de diferenciação de diagnóstico em relação às demais causas de Síndrome Respiratória Aguda Grave, cuja ocorrência vem aumentando de forma acelerada em diversas partes do país.

Tendo em mente todas essas ressalvas, é importante destacar um dado que indica um novo momento da pandemia na Baixada Fluminense. Entre 24 e 25 de abril, pela primeira vez, a região registrou um número maior de mortes (23) do que a capital do Estado (20).

Isso coincide com uma mudança no patamar do número de casos e óbitos confirmados, particularmente nos municípios da Baixada mais próximos à capital, que são também aqueles que possuem maior densidade populacional (Duque de Caxias, Nova Iguaçu, São João de Meriti, Belford Roxo, Mesquita e Nilópolis).

Entre os dias 06 e 25 de abril, o número de mortes confirmadas por COVID-19 por milhão de habitantes nesses municípios, que agrupamos na tabela abaixo sob a denominação "Baixada I", saltou de 3,5 para 40, atingindo uma ordem de grandeza similar à de várias áreas da capital, embora muito distante do patamar da Zona Sul.

Já nos demais municípios da Baixada, mais distantes da capital e com população mais esparsa, o número de morte confirmadas por milhão de habitantes coincide com a média nacional brasileira (16).


A discrepância entre os números da Zona Sul carioca e o das demais Áreas de Planejamento da capital, assim como da Baixada, pode ser atribuída a diversos fatores. O alto grau de internacionalização (viagens ao exterior e presença de turistas) e o perfil demográfico (grande número de idosos) contribuíram para que essa área da região metropolitana viesse a concentrar inicialmente o maior número de casos e de óbitos. 

Já a maior efetividade do distanciamento social propiciada pelas condições de vida e pelo acesso à informação científica podem ter contribuído para retardar a transmissão a partir da Zona Sul para as demais áreas.

Entretanto, a região metropolitana, apesar da redução do ritmo da atividade econômica e social, continua a funcionar como um organismo integrado.

Se os números de óbitos estiverem minimamente próximos da realidade, cada habitante da Baixada I que se desloca cotidianamente para a Zona Sul para exercer o seu trabalho aumenta sua exposição num grau similar ao de uma viagem à Alemanha. Ou seja, é como se ele visitasse diariamente um país com relativo sucesso na contenção da pandemia, mas que ainda assim possui índices de óbitos que estão mais de duas vezes acima daqueles registrados no seu local de moradia.


A análise desses dados apenas acentua as preocupações que já registramos neste blog quanto ao impacto devastador que um crescimento acelerado do número de casos na Baixada Fluminense tende a ter, considerando-se as condições pré-existentes de vida e de saúde da população e a precariedade da rede de atendimento.

O tratamento dos dados de forma que possibilite comparações baseadas em proporcionalidade e divisão em unidades lógicas coerentes é fundamental para fazer frente a abordagens superficiais.

Não faz sentido, por exemplo, comparar os dados da capital (no momento 4481 casos e 367 óbitos) com os dados individuais de cada município da Baixada, sem considerar o tamanhos das populações e as particularidades das condições socioeconômicas.

As indicações continuam a ser de evolução para um quadro de extrema gravidade, e é fundamental que as autoridades e a população como um todo se preparem para buscar, de todas as formas possíveis, reduzir as possibilidades de uma explosão acelerada de casos.

Essa preocupação torna-se ainda maior ao verificarmos que, na região, mesmo o avanço gradual verificado até o momento já está gerando situações de colapso dos sistemas de saúdes, como vem sendo noticiado pela imprensa nos últimos dias.

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