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COVID-19 na Baixada Fluminense: É necessário seriedade para continuar a salvar vidas

Prof. Alexandre Fortes, UFRRJ


Dois meses e meio após a Organização Mundial da Saúde classificar a COVID-19 como uma pandemia, a imensa maioria das pessoas já percebeu, muitas vezes de forma trágica, que não se trata de uma “gripezinha”.

O novo coronavírus já matou quase 400 mil pessoas no mundo, mais 30 mil no Brasil. A comparação entre o número de mortes confirmadas por COVID-19 e as médias históricas de falecimentos em países que já passaram o pico da curva de transmissão indicam que os números reais são provavelmente duas a três vezes maiores do que isso.

O impacto da COVID-19 não se resume a uma grande quantidade de vidas perdidas e ao sofrimento dos entes queridos sobreviventes. Os casos graves da doença, cerca de 15% dos infectados, podem deixar sequelas pulmonares, renais, neurológicas, cardíacas, dentre outras, cujas consequências para os indivíduos e para os sistemas de saúde ainda são imprevisíveis.

Dada a recente migração do vírus de animais para seres humanos, não há memória imunológica na população. Como também não existem ainda vacina ou remédio eficaz, as medidas não-farmacêuticas (tais como cuidados de higiene, uso de máscaras e isolamento social) são a única forma de evita que a contaminação de toda a população em um curto período de temo. 

Considerando que a letalidade do vírus se situa entre 1 e 2%, a falta de qualquer precaução poderia gerar entre 2 e 4 milhões de mortos apenas no Brasil. Felizmente, isso não vai ocorrer, mas milhares de mortes poderiam ter sido evitadas se as autoridades federais tivessem agido sempre orientadas pela ciência e pela valorização da vida humana.

Embora o Brasil, atual epicentro mundial da pandemia, ainda não tenha atingido o pico da primeira onda de infecções, é fundamental extrair lições dos últimos meses, já que, até a disponibilização de uma vacina segura em larga escala, teremos que lidar com a presença do vírus e com o risco de novas ondas por um tempo longo (estimado atualmente entre um ano e meio a dois anos)

No Rio de Janeiro, a pandemia se difundiu inicialmente partir de áreas habitadas pelo que denominamos, em textos anteriores, de "elite globalizada”, especialmente a Zona Sul e a Barra da Tijuca. Conforme alertamos há quase dois meses, a interiorização era apenas uma questão de tempo, e no contexto da região metropolitana isso representaria um deslocamento do foco das novas infecções para áreas de Índice de Desenvolvimento Humano mais baixo, ou seja, de condições de vida mais precárias. O IDH de Copacabana, por exemplo, é 0,956, o de Nova Iguaçu é 0,713 e o de Queimados é 0,680.

Analisando tendências em relação à Baixada Fluminense, o único fator positivo era que havia algum tempo para a preparação da sociedade e do poder público antes que a fase de transmissão acelerada atingisse a região. Por outro lado, os baixos índices de IDH mencionados acima se expressam diretamente numa maior vulnerabilidade diante de problemas de saúde. A região possui índices de casos de tuberculose três vezes maiores do que a média nacional e um município como Belford Roxo registra proporcionalmente seis vezes mais internações por diarreia do que a capital do estado. 

É conhecida também a precariedade da rede de atendimento à saúde na Baixada. A presença de lideranças políticas e religiosas negacionistas com forte influência sobre segmentos expressivos da população também era um fator que, desde o início da pandemia, gerava preocupação adicional.

Parte desse prognóstico negativo, infelizmente se confirmou. Ao longo do mês de maio, o número de casos de COVID-19 confirmados na Baixada passou de 1.826 para 8.540, um aumento de 467%. Os óbito subiram na mesma proporção, saltando de 202 para 927, um aumento de 458%.



Apesar da tragédia humana por detrás de cada um desses números, é importante salientar que, mesmo com falhas e limitações, o esforço de prevenção realizado por uma parcela expressiva da sociedade por parte das autoridades, por meio de cuidados pessoais e medidas de iIsolamento está salvando muitas vidas na Baixada Fluminense.

Para comprovar essa afirmação, faremos uma comparação entre os dois maiores municípios da região. Apesar de um pouco menos populosa, Nova Iguaçu, hoje possui quase vinte por cento mais casos confirmados de COVID-19 (1.766) do que Duque de Caxias (1.478). O número de óbitos, entretanto, é menor em Nova Iguaçu (182) do que em Duque de Caxias (250). Analisando o percentual de óbitos em casos encerrados verifica-se que ele é de 19,17% em Duque de Caxias e de 12,28% em Nova Iguaçu. Apenas a título de comparação, esse índice, na capital, varia de 10,83% na AP 2.1 (Zona Sul) a 24,71% na AP 5.3 (Santa Cruz).

Baseado nesses índices, é possível calcular que, se Nova Iguaçu tivesse o mesmo índice de Caxias, o município teria 102 óbitos a mais nesse momento (56%). Já se Duque de Caxias tivesse o mesmo índice de Nova Iguaçu, teria registrado 90 óbitos a menos (51%). Por outro lado, se Nova Iguaçu tivesse os índices de Santa Cruz, o número de óbitos seria 184 superior (101%).

O que explica diferenças tão significativas na letalidade da COVID-19 entre os dois maiores municípios da Baixada Fluminense. 

Uma pista importante pode ser extraída dos índices de internação por Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) disponibilizados pelo painel da Secretaria Estadual de Saúde. Essa informação possui uma importância significativa por dois motivos. O primeiro é que em muitos casos a evolução para casos graves e mesmo óbito de um paciente que chega a uma unidade de saúde com falta de ar ocorre sem que seja possível confirmar se a causa foi  COVID-19 ou não. O segundo motivo é que esse pacientes, independentemente da verificação de causas, disputam os mesmos leitos e a mesma atenção emergencial, que em muitos casos demanda acesso às escassas vagas de Tratamento Intensivo.

Considerando-se que o objetivo das medidas de mudanças comportamental e isolamento social é justamente evitar o colapso do sistema de saúde e o consequente aumento da letalidade, a evolução dos números sobre as internações dessa natureza é preciosa para compreender os resultados obtidos em cada lugar.

Na Baixada Fluminense como um todo, houve um grande salto nas internações por Síndrome Respiratória Aguda Grave na 14a semana epidemiológica de 2020 (29/03 a 04/04). Esse salto, entretanto, foi de 425% em Nova Iguaçu, mas chegou a 742% em Duque de Caxias.

No período seguinte, até o final de maio, a variação percentual foi semelhante nos dois municípios de uma semana para a outra, mas como em Duque de Caxias o número de base inicial era mais elevado, o sistema permaneceu sobrecarregado, o que provavelmente explica a alta letalidade da doença no município.



Mas o que explica a dimensão absurdamente elevada da onda de internações por SRAG em Duque de Caxias no final de março e início de abril? 

Na semana anterior, mais precisamente no dia 25 de março, o prefeito Washington Reis rechaçava a possibilidade de adotar medidas de isolamento social, defendendo inclusive a manutenção da abertura de igrejas, alegando que “a cura virá de lá”. Algum tempo depois, acometido de COVID-19, Reis não buscou a cura num templo religioso, mas sim numa clínica particular na Zona Sul carioca, visto que os hospitais da cidade que governa estavam sendo inundados por um tsunami de pacientes de COVID-19. 

Um mês após a recusa do prefeito de Duque de Caxias em agir de acordo com as orientações da OMS e três semanas após a explosão das internações por SRAG, o jornal O Globo noticiava: “Necrotério do Hospital Moacyr do Carmo, em Caxias, está lotado e cadáveres estão até nos corredores”.

A análise integrada de números e atitudes governamentais, demonstra que, apesar das falhas, onde houve um mínimo de seriedade por parte das autoridades, das lideranças comunitárias e da população em geral, as medidas preventivas retardaram e possibilitaram administrar os impactos da pandemia na Baixada até o momento.

Embora o número absoluto de casos hoje seja maior na região do que nos focos originais (Zona Sul e Barra), os índices em proporção à população ainda são muito inferiores. A AP2 da capital (Zona Sul e Tijuca) registra atualmente 692casos por 100 mil habitantes, enquanto a Baixada, com 230, não chega a um terço desse número.

É muito provável que parte dessa diferença se deva à maior subnotificação. Mas também é possível que tanto o isolamento social realizado em condições mais favoráveis nos bairros de classe média alta do Rio de Janeiro quanto os esforços no mesmo sentido em condições mais adversas na Baixada tenham ajudado a reduzir a velocidade de propagação da doença.

A análise do número de óbito tende a confirmar que a transmissão não atingiu a região com a mesma intensidade e velocidade que se difundiu inicialmente na capital. Se isso tivesse ocorrido, considerando-se as condições estruturais, teria havido um desastre muito superior ao verificado até o momento.

O índice de óbitos por milhão de habitantes na AP2 já chegou a 698, bem acima do verificado em países que já passaram pelo pico da primeira onda de infecções (Espanha, 580; Itália, 553; Reino Unido, 567; França, 441). Já o dos seis municípios da Baixada mais próximos à capital é de 244, sendo de 228,5 em Nova Iguaçu e 292 em Duque de Caxias.

Dito de outra forma, se tivesse chegado, ou se vier a chegar, aos padrões estatísticos da Zona Sul, o número de óbitos da Baixada Fluminense triplicará, ou talvez, considerando-se a precariedade do sistema de saúde, possa até se multiplicar de forma mais acentuada. 

A análise desses dados e as indicações que eles dão sobre a eficácia das medidas preventivas é fundamental para nos prepararmos para a longa convivência que teremos com a COVID-19.

Enquanto não se viabiliza a testagem em massa, é necessário ao menos tentar estimar que parcela da população entrou em contato com o vírus e desenvolveu algum grau de imunidade. Diversos pesquisadores apontam que o número de casos confirmados sejam de menos de 10% do número real de infectados. Usando esse índice poderíamos deduzir algo em torno de 85.000 infectados na Baixada Fluminense. Outra forma de estimar o número real de casos seria aplicar de forma reversa a taxa de letalidade, que se supõe variar entre 1 a 2% (dez a vinte vezes maior do que a gripe). Os 913 óbitos na região indicariam portanto de 91.300 a 182.600 infectados. 

Em qualquer dessas hipótese, estaríamos falando de algo entre 2 e 4% da população com alguma imunidade nesse momento, superior ao verificado pelo inquérito sorológico nacional estima (1,4%), mas astronomicamente distante da meta de 70% necessária para gerar a “imunidade de rebanho”. Vale destacar que a Suécia, usada como paradigma de quem critica o isolamento social, atingiu apenas um décimo da meta de imunização (7%), ao custo de milhares de vidas que poderiam ter sido poupadas com uma abordagem mais cautelosa.

Em síntese, mesmo que uma tragédia maior tenha sido evitada e que haja a cautela necessária para fazer uma transição gradual apenas quando os indicadores científicos indicarem que é seguro fazê-lo, a imensa maioria da população continuará exposta ao vírus até que haja vacina segura, eficaz e acessível, o que dificilmente ocorrerá até o final do próximo ano.

A continuidade do isolamento no momento pode permitir reduzir casos ativos e tornar pandemia mais administrável. Conforme alerta o infectologista Roberto Medronho, uma saída precipitada do isolamento social, no momento atual, pode jogar por terra todo esforço feito até o momento para evitar o colapso total do sistema de saúde, com consequências gravíssimas em relação à mortalidade.

Além disso, todas nossas atividades e rotinas precisarão ser revistas para transição gradual ao “novo normal”. Aglomerações tradicionais continuarão a ser extremamente perigosas, o que vai exigir uma profunda reeducação, mudanças culturais e planejamento.

Os sistemas de vigilância e de atendimento em saúde vão continuar a demandar reforços, conjugados com políticas econômicas que desenvolvam plenamente o potencial do segmento da saúde (remédios, equipamentos, atendimento, telemedicina, etc.).

A pandemia nos desafia a uma profunda reflexão sobre os valores que devem orientar nossa convivência social. A defesa da vida humana e a luta por justiça social, orientadas pela razão, pela ciência e pela prática democrática, mais do que nunca, devem estar no centro de qualquer projeto de futuro para o Brasil e para o mundo.

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© 2020 por PPGIHD-UFRRJ

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