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COVID-19: Brasil é a bola da vez e periferia do Rio de Janeiro será duramente atingida

Prof. Alexandre Fortes, UFRRJ


Há cerca de um mês e meio estamos acompanhando de forma sistemática os dados referentes à COVID-19 no Brasil, dedicando especial atenção às tendências sobre a evolução da pandemia na Baixada Fluminense e em outras áreas periféricas da Região Metropolitana do Rio de Janeiro.

É amplamente reconhecido, inclusive pelas autoridades sanitárias, que as estatísticas oficiais possuem graves limitações, especialmente subnotificação e atraso na confirmação e processamento das informações sobre confirmações de casos e óbitos.

Alguns de nossos colegas no Programa de Pós-Graduação em Humanidades Digitais, assim como em diversos departamentos da UFRRJ, vêm trabalhando para depurar esses dados e produzir estimativas mais consistentes com base em modelos avançados e no conhecimento científico acumulado internacionalmente.

Paralelamente, temos trabalhado com a hipótese de que, apesar das falhas e imprecisões dos números oficiais, a partir de uma análise crítica e comparativa é possível utilizá-los para identificar tendências que podem cumprir um importante papel na orientação das políticas de enfrentamento da pandemia.

Há poucos dias, os dados sobre a situação da Baixada Fluminense produzidos pela equipe interdisciplinar do OpenLab da UFRRJ foram utilizados pela Fiocruz em resposta à solicitação do Ministério Público de um parecer técnico sobre a necessidade de decretação de lockdown no estado do Rio de Janeiro.

Esse reconhecimento da relevância das análises que temos produzido aumenta nossa responsabilidade em alertar para a tendência a um agravamento acentuado da situação nas próximas semanas, reforçando as previsões que já vínhamos fazendo há algum tempo.

A primeira coisa que precisamos ter em mente é que o Brasil caminha a passos largos para se constituir no novo epicentro da pandemia no mundo. Nos últimos dias, pela primeira vez, o país registrou o segundo maior número de novas mortes causadas pela COVID-19 em todo o mundo, ficando atrás apenas dos Estados Unidos.

A ilustração abaixo foi gerada a partir do gráfico interativo que possibilita a comparação da trajetória da pandemia em diversos países no site "Our World in Data". Percebe-se que na Itália o crescimento do número de casos atualmente é bem menos acentuado, ao contrário do que ocorre no Reino Unido em nos Estados Unidos, onde a pandemia tem gerado cerca de 2.000 mortes diárias há mais de duas semanas.


Nenhum desse países, entretanto, possui no momento uma tendência de agravamento da pandemia similar à do Brasil, que pode ser identificada na linha tracejada vermelha. Embora não tenhamos competência técnica para traduzir essa tendência em estimativas sobre o número de casos e óbitos que o país deve atingir, o gráfico não deixa dúvidas de que a magnitude da COVID-19 nas próximas semanas, talvez meses, será muito superior à atual, que já tem deixado o sistema de saúde à beira do colapso em várias cidades.

Temos chamado a atenção também para o caráter continental do Brasil, marcado por profundas diferenças regionais, que geram ritmos diferentes na difusão do vírus, assim como para as extremas desigualdades sociais que fragilizam a maioria da população no que diz respeito aos riscos de contaminação e evolução para quadros graves.

Nesse sentido, o acompanhamento dos dados sobre diferentes áreas da Região Metropolitana do Rio de Janeiro gera motivos para preocupação adicional.

Vamos enfocar aqui apenas a relação entre duas dessas áreas. De um lado, a AP2, composta pela Zona Sul da capital do estado e a chamada Grande Tijuca. De outro, a grande área contínua de altíssima densidade de ocupação desordenada e precária formada pela AP3 da capital (Ramos, Penha, Inhaúma, Méier, Irajá, Ilha do Governador, Anchieta, Pavuna, Jacarezinho, Complexo do Alemão, Maré e Vigário Geral) e por seis municípios da Baixada Fluminense (Duque de Caxias, Nova Iguaçu, São João de Meriti, Belford Roxo, Nilópolis e Mesquita).


A AP2, que de acordo com o IBGE possuía em 2010 pouco mais de um milhão de habitantes, nas primeiras semanas após a pandemia atingir o Brasil, respondia pela grande concentração de casos e de óbitos no Rio de Janeiro. Inicialmente, tratavam-se de casos importados do exterior, que posteriormente deram origem a focos de transmissão comunitária.

Apesar de conter muitas favelas, AP2 concentra o maior número de residências de classe média da região metropolitana, e possui uma excelente rede de serviços de saúde. Por outro lado, possui uma alta proporção de idosos, o que agrava a tendência a casos graves e óbitos.

A realidade socioeconômica da AP3 e dos municípios contíguos da Baixada Fluminense é profundamente diferente. Com cerca de cinco milhões e quatrocentos mil habitantes, essa área possui altos índices de tuberculose, internações por diarréia e de incidência de diversos outros problemas de saúde associados a condições sub-humanas de habitação e saneamento. A rede de saúde é absolutamente precária, e praticamente não existe articulação institucional das esferas de governo para planejar o enfrentamento a um desafio sanitário desta magnitude.

O sinal de que o epicentro da pandemia na região metropolitana se desloca pouco a pouco para essa área já são visíveis. O número absoluto de casos, tanto na AP3 quanto na Baixada (incluindo também os sete municípios mais distantes da capital e com menos casos), já superou o da AP2, apesar de também continuar em ascensão nela, possivelmente atingindo agora mais as grandes favelas do que a classe média.



Embora a proporção de casos por 100 mil habitantes ainda seja muito mais elevada na AP2 (196) do que na Baixada (62) ou na AP3 (84), nada indica que ela não venha a se tornar equivalente ou até superior, o que significa projetar, para daqui a um mês, uma expansão de algo em torno de 250% no número de casos atuais para essas áreas periféricas.

Em relação aos óbitos, a AP3 (293) já ultrapassou a AP2 (269), que está praticamente empatada com a Baixada (268). Na primeira semana de maio, os óbitos cresceram 75% na Baixada, 62% na AP3 e 56% na AP2. Considerando-se que os óbitos refletem contaminações ocorridas há duas ou três semanas, a tendência é que essas diferenças nas taxas de crescimento entre as áreas tendam a se acentuar.

Portanto, se hoje a taxa de óbitos por milhão de habitantes na AP2 (267) ainda é muitíssimo superior à da AP3 (122) e mais de três vezes superior à dos seis município da Baixada citados acima (81), isso, novamente, só reforça a tendência de que o número de fatalidades venha a se multiplicar de forma acelerada nas áreas onde o impacto da pandemia é mais recente.

A título de comparação, essa taxa, atualmente, é de 47 para o Brasil como um todo, de 268 para os Estados Unidos (inferior, portanto, à da AP2), mas chegou na Itália e na Espanha a mais de 500 antes que o ritmo de crescimento do número de óbitos começasse a cair.

Em síntese, o Brasil caminha para se tornar um dos epicentros da pandemia no mundo e nada indica que o pico da primeira onda esteja sequer próximo.

A área integrada constituída pela AP3 e pelos municípios da Baixada contíguos, delineada pela linha amarela no mapa acima, que concentra mais da metade da população da Região Metropolitana do Rio de Janeiro, tende a se tornar um dos principais centros do crescimento do número de casos e de óbitos no país.

Essa tendência exige reforço às medidas de isolamento social, combinado com campanhas informativas, medidas de transferência de renda e assistências social, planejamento integrado das ações de saúde entre diferentes esferas de governo, mobilização solidária de todos os segmentos e atores sociais.

Menosprezar a gravidade da situação pode ampliar em muito a escala do sofrimento humano que, infelizmente, já se faz presente à vida da maioria das famílias e das comunidades.

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