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Como as humanidades digitais podem ajudar durante a pandemia?




Introdução

Desde o início da pandemia de COVID-19 está ocorrendo uma verdadeira corrida contra o tempo para estudar o vírus e consequentemente implementar medidas, baseadas na ciência, para proteger as sociedades. Nunca foi tão urgente a compreensão por parte da população dos dados científicos. Neste sentido os estudos transdisciplinares em humanidades digitais podem desempenhar um papel fundamental.

Numa era de conectividade quase ilimitada, vigilância digital acirrada e isolamentos sociais, parece que a única coisa capaz de viajar mais rápido que o próprio coronavírus é a (des)informação. Mesmo com o crescimento exponencial dos casos COVID-19, há milhares de relatos pessoais, aplicativos online e grandes massas de dados sobre o vírus em todos os lugares; esses dados estão sendo coletados de diversas formas; desde o modo automático e transparente nos dispositivos móveis e redes sociais até notificações compulsórias através do preenchimento de formulários em unidades de atendimento à saúde. Porém, em qualquer caso cabem perguntas fundamentais, por exemplo, esses dados são confiáveis e transparentes? como, onde e por quem são mantidos? existem esforços de compartilhamento, reuso e curadoria desses dados? as análises dos dados que estão sendo apresentadas nas mídias estão despidas de vieses metodológicos ou ideológicos?

As reações às notícias de surtos e as medidas de endurecimento ou relaxamento do isolamento social no Brasil (e vários países do mundo) variam desde o ceticismo coletivo até o medo individual da contaminação. Quase todas essas notícias têm como pano de fundo os impactos econômicos e análises superficiais de dados. Com o dilúvio de dados evoluindo a cada hora não é de admirar que as percepções do público sobre a pandemia variem amplamente. Neste sentido o trabalho conjunto dos cientistas de dados, profissionais da saúde e de humanidades digitais podem desempenhar um papel muito importante. Podem atuar não só no que diz respeito as análises de dados como também nas práticas que assegurem qualidade dos dados. Além disso, devem fundamentalmente assegurar que suas pesquisas devem ser compreendias por diferentes públicos e não apenas pelos cientistas.

Vários pesquisadores da área de Humanidade Digitais e de Ciência de Dados, entre eles os professores Robert West, líder do Data Science Lab na Escola de Ciências da Computação e Comunicação da EPFL (Suiça) e James Hendler diretor do Rensselaer Institute for Data Exploration and Applications (EUA), defendem que serão necessárias mais do que simples declarações de cientistas ao público incentivando-o ao achatamento da curva, lavagem frequente das mãos e distanciamento social. Os professores destacam existem vários componentes tradicionais do Big Data na pandemia de COVID-19. Porém, o professor West vai além, ele informa que os dados não são despidos de contextos cognitivos. Ele ressalta que "Há um aspecto muito humano nos dados; não se trata apenas dos fatos numéricos, mas de como as pessoas os entendem".

Os professores também advertem que quando se repassam de artigos científicos para o grande público, através de mídias sociais, este muitas vezes não é capaz de compreender esse tipo de informação, muitas vezes essas informações são ignoradas ou mesmo deturpadas. Além disso, sinalizam um outro fato, muitos cientistas não percebem como suas pesquisas podem alcançar o grande público.

Três dicas de um cientista de dados em humanidades digitais

Aqui vão algumas dicas tradicionalmente utilizadas em humanidades digitais e que podem ser de grande utilidade para o público ao explorar os datasets do COVID-19 e não se tornar vítima de informações falsas ou mesmo extrair interpretações equivocadas dos dados.

  1. Verifique as fontes de interpretação dos dados e dos próprios dados. Em princípio a dica pode parecer óbvia, mas os seres humanos têm uma fome inata de notícias sensacionalistas e sede de difundi-las com um único clique. Procure fontes de dados de fontes respeitáveis ​​(universidades, institutos de pesquisa, órgãos oficiais e veículos de notícias conceituados), leia, sempre atentamente, as legendas de gráficos e infográficos que descrevem os datasets. Lembre-se diferentes países têm abordagens diferentes para a coleta de dados epidemiológicos e testes para o COVID-19, seus números nem sempre são facilmente comparáveis.

  2. Leia os rótulos dos eixos dos gráficos e metadados dos arquivos. Em geral as pessoas se apressam e focam sua atenção apenas nas curvas. Verifique a temporalidade dos gráficos e se esses são lineares, exponenciais ou logarítmicos, isso faz uma grande diferença quando se trata de entender o crescimento do número de infectados ou mortes.

  3. Mantenha a perspectiva do tempo e do espaço. Lembre-se de que os dados da pandemia do COVID-19 estão mudando diariamente, além disso são coletados de diversas formas, frequências, lugares e em diversos formatos. O que estamos vendo nas aplicações online refletem eventos que estão se desenrolando em tempo real em determinados espaços geográficos. O que lemos hoje pode ser diferente amanhã, as taxas variam em função dos locais o tempo todo.

Conclusão

O impacto sem precedentes do COVID-19 demanda um novo mindset. Finalizamos essa resenha convidando o público a apoiar os esforços colaborativos e transdisciplinares que os pesquisadores estão desenvolvendo; evite divulgar notícias fantasiosas. Nunca foi tão necessário reunir pessoas que entendem a não só de ciências médicas, mas também de computação e humanidades digitais. Enquanto isso, FIQUE EM CASA o quanto puder!

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