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A Dispersão da Covid-19 na Baixada Fluminense: um paralelo entre Duque de Caxias e Nova Iguaçu

Heitor Soares de Farias

Departamento de Geografia - Programa de Pós-Graduação em Geografia - UFRRJ


Desde a tarde da sexta-feira, 13 de março, no dia seguinte da divulgação do primeiro caso de transmissão local de Covid-19 no estado do Rio de Janeiro, o governador determinou o isolamento social: proibição de eventos e fechamento de estabelecimentos não essenciais, a fim de evitar aglomerações e inibir a propagação do coronavírus1. Tal medida provocou uma reação em cadeia entre prefeitos, principalmente na baixada fluminense, periferia da região metropolitana, área muito populosa e com muitos déficits sociais2.

Entre os municípios de maior população na baixada fluminense, Nova Iguaçu, com população estimada em 821 mil habitantes3, teve decreto municipal expedido a favor do isolamento divulgado em 22 de março. Já em Duque de Caxias, com população estimada em 919 mil habitantes3, o decreto municipal só foi divulgado em 3 de abril, após a declaração do primeiro óbito no município. Ainda assim, o prefeito de Duque de Caxias, relutou em fechar o comércio e, mesmo depois de editar o decreto, diferentemente da determinação estadual, fez questão de enfatizar que as igrejas ficariam abertas, pois ajudariam na cura da Covid-194.

A postura do prefeito, em consonância com o presidente da república e contra o governador5, fez com que muitos cidadãos não aderissem ao isolamento e boa parte do comércio não essencial continuou a funcionar normalmente. O fluxo de pessoas nas ruas é alto, não como um dia comum, mas bastante elevado se comparado ao que acontece em Nova Iguaçu, onde a política de isolamento vem sendo mais seriamente cumprida. A consequência dessa postura é o grande número de óbitos por Covid-19 em Duque de Caxias, o segundo município no estado do Rio de Janeiro, atrás somente da capital6.

A tabela 1 mostra que Nova Iguaçu (122) tem 30% mais casos registrados do que Duque de Caxias (94), entretanto Nova Iguaçu (8) tem 40% menos óbitos do que Duque de Caxias (20). Os óbitos em Duque de Caxias, proporcionalmente, são superiores ao Rio de Janeiro quando considerados casos por 100.000 mil habitantes. Estes dados nos levam a acreditar que em uma grande subnotificação, principalmente no número de infectados em Duque de Caxias, pois o percentual de mortes em relação aos infectados é de mais de 20%, muito superior aos demais municípios da baixada fluminense e ao relatado pela OMS8. Também é possível perceber a importância do isolamento social e suas consequências sobre o número de mortes, quando não é respeitado, como pode ser percebido em Duque de Caxias.



Como explicar o avanço da Covid-19 na baixada fluminense, especialmente, em Nova Iguaçu e Duque de Caxias? Embora acometa os seres humanos, sabemos que o processo saúde-doença está relacionado às condições de vida da população9, ou seja, às características espaciais (em saúde chamadas de características territoriais) que são produzidas pela sociedade e que refletem a injusta distribuição da riqueza10. Essas diferenças entre fatores sociais, econômicos, culturais, étnicos/raciais, psicológicos e comportamentais que influenciam a ocorrência de problemas de saúde e seus fatores de risco na população, compondo os determinantes sociais em saúde11. Isto mostra a importância do isolamento social como medida de redução dos riscos na exposição, principalmente pelos grupos mais vulneráveis.

No caso da Covid-19, além da idade, a condição social tem se mostrado como determinante para o agravamento do quadro do paciente, devido às comorbidades12. Isto, em princípio, não explicaria sua transmissão, tendo em vista que o coronavírus chegou ao país trazido por integrantes das classes sociais mais elevadas que voltaram de viagens ao exterior13. Ainda hoje, na cidade do Rio de Janeiro, os bairros com mais registros da doença são 1º Barra da Tijuca, 2º Copacabana e 3º Leblon, evidenciando que as áreas nobres da cidade, inicialmente afetadas, permanecem contabilizando mais casos7. Assim, nos municípios da baixada fluminense, onde os determinantes sociais em saúde preocupam pela dimensão que pode levar a alcançar o número de mortes pela Covid-19, interessa-nos entender a distribuição espacial dos casos registrados nos municípios da periferia até o momento.

No dia 14 de abril, Nova Iguaçu apresentou mais casos de infectados nos bairros 1° Centro, 2° Posse e 3º Austin. Em Duque de Caxias com mais casos estavam os bairros 1º Centro, 2º Parada Angélica, 3º empatados Jardim Primavera, Mantiquira, Parque Marilandia, Saracuruna, Vila Leopoldina, Xerém7. Nesse contexto que o território utilizado14 se mostra como categoria fundamental de análise para o entendimento dessa interação entre classes, pois extrapola os limites do “território de moradia”. O território utilizado pode ter várias escalas e associa-se ao espaço da produção, circulação, mas também da associação e lazer. Embora este pareça excessivamente amplo, na maior parte dos dias a mobilidade ocorre em áreas restritas do ir e vir cotidiano da população, com suas rotinas de deslocamento entre as instituições da vida social, influenciadores e influenciados pelos usos dados ao território15.

Boa parte da população da periferia realiza deslocamento pendular diário, casa-trabalho-casa, para a cidade do Rio de Janeiro, núcleo da metrópole. Desta maneira o morador da baixada fluminense divide o território utilizado com membros da elite carioca e, em algum momento, pode entrar em contato com o coronavírus. Ao retornar para seu município de residência, circulando na área central, mais habitada e movimentada também pela maior concentração de serviços essenciais, passa a dividir seu território utilizado com os outros frequentadores dessa área, moradores do local e adjacências, espalhando o vírus.

Assim, uma das possibilidades para se mapear áreas de risco para contaminação pelo coronavírus é a partir dos fluxos intra e intermunicipais, a partir dos infectados, e não só pelas vulnerabilidades sociais, pois é preciso haver a presença do coronavírus para desencadear o Covid-19. Em Duque de Caxias, a espacialização dos dados de população infectada por bairro de residência, como são disponibilizados pela Secretaria Estadual de Saúde, foi impossibilitada. Muitos bairros declarados não existem oficialmente para a prefeitura, o que impede a localização e espacialização dos casos no município.

Isso acontece, pois a legislação está desatualizada, datam das décadas de 1970 e 1980, e descrevem uma cidade que já não existe mais, o que impõe dificuldades ao estabelecimento dos limites do seu território, tanto por parte da população quanto pela própria Prefeitura. Esse quadro impede algumas ações de planejamento urbano, como neste caso que é um melhor entendimento de como o coronavírus se propaga no município.

Referências


1 CAPOBIANCO, Marcela. Governador Witzel decreta fechamento de cinemas, teatros e casas de show. Revista Veja, Rio de Janeiro, Shows. 13.03.2020. Disponível em: https://vejario.abril.com.br/cidade/governador-witzel-decreto-fechamento-cinema/. Acessado em: 29 de março de 2020.

2 FARIAS, Heitor Soares. Espaço Geográfico como categoria de análise da qualidade de vida e saúde da população. Geouerj, Rio de Janeiro, n. 34, e, 28418, 2019 | doi: 10.12957/geouerj.2019.28418.

3 INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. IBGE Cidades. Brasil, Rio de Janeiro, Panorama Municipal. 15.04.2020. Disponível em: https://cidades.ibge.gov.br/. Acessado em: 13 de abril de 2020.

4 ALVES, Chico. Após dizer que igreja cura covid 19 prefeito está internado com a doença. UOL, Rio de Janeiro. 12.04.2020. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/colunas/chico-alves/2020/04/12/apos-dizer-que-igreja-cura-covid-19-prefeito-esta-internado-com-a-doenca.htm. Acessado em: 13 de abril de 2020.

5 SABINO, Marla e BEHNKE, Emiliy. Bolsonaro confronta ação de governadores, que reagem. O Estado de São Paulo, São Paulo, 20.03.2020. Disponível em: https://politica.estadao.com.br/noticias/geral,bolsonaro-alguns-governadores-estao-tomando-decisoes-que-nao-sao-de-suas-competencias,70003241261. Acessado em: 30 de março de 2020.

6 REGEUIRA, Chico. Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, é a 2º cidade em número de mortes no RJ. O Globo, Rio de Janeiro, 13.04.2020. Disponível em: https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2020/04/13/ultima-a-restringir-comercio-na-regiao-metropolitana-caxias-e-a-segunda-cidade-do-rj-em-numero-de-mortes.ghtml . Acessado em: 16 de abril de 2020.

7 GOVERNO DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO. Painel Coronavirus Covid-19. Secretaria de Saúde, Rio de Janeiro. 14.04.2020. Disponível em: http://painel.saude.rj.gov.br/monitoramento/covid19.html. Acessado em: 14 de abril de 2020.

8 REVISTA VEJA. Coronavírus: apenas 5% dos casos são graves, diz OMS. Revista Veja, São Paulo, Saúde. 18.02.2020. Disponível em: https://veja.abril.com.br/saude/coronavirus-apenas-5-dos-casos-sao-graves-diz-oms/. Acessado em: 28 de março de 2020.

9 MONKEN, M. Contexto, território e processo de territorialização de informações. Desenvolvendo estratégias pedagógicas para a educação profissional em vigilância em saúde. In: BARCELLOS, Christovam (org.). A geografia e o contexto dos problemas de saúde. Rio de Janeiro: Abrasco, 2008, p. 141-163.

10 CORRÊA, R. L. Espaço, um conceito-chave da Geografia. In: CASTRO, I. E.; GOMES, P. C. C.; CORRÊA, R. L. (org.). Geografia: conceitos e temas. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 352p, 1995.

11 BUSS, Paulo Marchiori; PELLEGRINI FILHO, Alberto. A Saúde e seus determinantes Sociais. PHYSIS: Rev. Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 17, n. 1, p. 77-93, 2007.

12 NUNES, Maíra e CARDIM, Maria Eduarda. Coronavírus é mais letal para pacientes pretos e pardos. Correio Braziliense, Brasília. 13.04.2020. Disponível em: https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/brasil/2020/04/13/interna-brasil,844115/coronavirus-e-mais-letal-para-pacientes-pretos-e-pardos.shtml. Acessado em: 16 de abril de 2020.

12 BARREIRA, Gabriel e GRANDIN, Felipe. Bairros mais caros do Rio lideram casos, mas especialistas temem 'explosão' de Covid-19 nas favelas. O Globo, Rio de Janeiro. 25.03.2020. Disponível em: https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2020/03/25/bairros-mais-caros-do-rio-lideram-casos-mas-especialistas-temem-explosao-de-covid-19-nas-favelas.ghtml. Acessado em: 29 de março de 2020.

13 SANTOS, Milton e SILVEIRA, Maria Laura. O Brasil: território e sociedade no início do século XXI. Rio de Janeiro: Record, 2001.

14 MONKEN, Mauricio e BARCELLOS, Christovam. Vigilância em saúde e território utilizado: possibilidades teóricas e metodológicas. Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 21(3):898-906, mai-jun, 2005.

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