• fortesufrrj

A contínua dispersão da Covid-19 na Baixada Fluminense

Por que decidiram flexibilizar o isolamento?


Heitor Soares de Farias


Introdução

Em 16 de abril escrevi aqui no Openlab um ensaio intitulado A Dispersão da Covid-19 na Baixada Fluminense: um paralelo entre Duque de Caxias e Nova Iguaçu1 mostrando a importância do isolamento social como estratégia principal no enfrentamento da Covid-19. Fiz uma comparação entre as medidas tomadas pelas prefeituras de Duque de Caxias e Nova Iguaçu, os dois maiores municípios da baixada fluminense, periferia da região metropolitana do Rio de Janeiro, que tomaram caminhos diferentes na restrição da circulação da população.

Nova Iguaçu teve decreto municipal expedido a favor do isolamento divulgado em 22 de março. Já em Duque de Caxias o decreto municipal só foi divulgado em 3 de abril, após a declaração do primeiro óbito no município. Ainda assim, o prefeito de Duque de Caxias, relutou em fechar o comércio e, mesmo depois de editar o decreto, diferentemente da determinação estadual, fez questão de enfatizar que as igrejas ficariam abertas, pois ajudariam na cura da Covid-192. O resultado foi o grande número de óbitos por Covid-19 em Duque de Caxias, o segundo município no estado do Rio de Janeiro, atrás somente da capital3.

Naquele momento a divulgação do local de residência dos pacientes por bairro no município de residência foi fundamental para entender como a Covid-19 se dispersava, pois tanto Duque de Caxias como Nova Iguaçu apresentavam mais casos nos bairros centrais. Sabendo que a dispersão da doença necessita de um agente que veio de outro país trazido pelas classes sociais mais abastadas4, nesse contexto que o território utilizado5 se mostrou como categoria fundamental de análise para o entendimento dessa interação entre classes, pois extrapola os limites do “território de moradia”.

Diante da restrição à circulação de pessoas imposta pelos decretos estadual e municipais, que alcançou índice de isolamento social 85% na capital fluminense6, quem continuou se expondo foram os trabalhadores atuante nas atividades essenciais, moradores das periferias. Ao realizar deslocamento pendular diário, casa-trabalho-casa, para a cidade do Rio de Janeiro, núcleo da metrópole, o morador da baixada fluminense divide seu território utilizado com membros da elite carioca e, em algum momento, pode entrar em contato com o coronavírus. Ao retornar para seu município de residência, circulando na área central, mais habitada e movimentada, também pela maior concentração de serviços essenciais, passa a dividir seu território utilizado com os outros frequentadores dessa área, espalhando o vírus para moradores do local e adjacências. Isso explica o maior número de casos nos centros desses municípios centrais da baixada fluminense.

E foi assim que em poucas semanas o coronavírus atingiu as periferias e, diante da vulnerabilidade social, a letalidade foi maior. Hoje, na cidade do Rio de Janeiro, os bairros com mais casos confirmados são 1º Copacabana, 2º Campo Grande e 3º Barra da Tijuca, mas com mais mortes são 1º Campo Grande, 2º Bangu e 3º Copacabana7. Assim, apesar de apresentarem menos casos o número de mortes é maior nos bairros da Zona Oeste, periferia da capital.

O que mudou dois meses depois?

Atualizando as informações para a 12 de junho, após oito semanas da primeira análise, o que se vê é a reprodução do quadro inicial em outra escala territorial. Os moradores das periferias mais distantes acessam os maiores centros da baixada fluminense, Nova Iguaçu e Duque de Caxias, ou mesmo nos bairros periféricos da capital, como Campo Grande e adjacências. Os territórios utilizados vão se misturando e pouco a pouco o coronavírus vai se dispersando. Agora, a periferia da metrópole funciona como um centro para a ampliação do número de casos registrados na sua periferia, ou seja, a periferia da periferia, que são as frentes de expansão urbana no extremo oeste metropolitano e na transição da baixada fluminense para o leste metropolitano.

Na tabela 1, construída com os dados da Secretaria Estadual de Saúde8, comparando os casos por 100 mil habitantes, observa-se que os municípios com mais registros são 1º Guapimirim, 2º Queimados, 3º Itaguaí, 4º Rio de Janeiro, 5º Paracambi, 6 º Magé e 7 º Seropédica. Já em relação às mortes por 100 mil habitantes, com mais registros estão 1º Rio de Janeiro, 2º Guapimirim, 3º Magé, 4º Itaguaí, 5º Mesquita, 6º Duque de Caxias e 7º Paracambi. Com exceção de Japeri, os demais municípios do extremo oeste metropolitano (Queimados, Itaguaí, Paracambi, Seropédica e Japeri) e da transição da baixada fluminense para o leste metropolitano (Magé e Guapimirim) estão na primeira metade desses tristes rankings (Figura 1).



Figura 1 – Mapa da região metropolitana do Rio de Janeiro e suas sub-regiões.

Organização e Elaboração: Laboratório Integrado de Geografia Física Aplicada (LiGA-UFRRJ) e Laboratório de Geografia Econômica e Política (LAGEP-UFRRJ) [2020].

Esse espraiamento da Covid-19 fica ainda mais evidente quando analisamos o crescimento do número de casos registrados nesse período compreendido entre as duas datas utilizadas como referência, 14 de abril e 12 de junho de 2020 (Tabela 2).



Em 14º lugar, com menor crescimento, está o município do Rio de Janeiro, dado que no início da análise já apresentava muitos casos, sendo o epicentro da Covid-19 no estado. Imediatamente acima, em 13º e 8º lugares estão os municípios da baixada histórica com urbanização mais densa9, atingidos na sequência, que já apresentavam mais casos e mortes na primeira data. E na parte superior, do 7º ao 1º lugar, os municípios que apresentaram maior crescimento, localizados no extremo oeste metropolitano formado pelas cidades de Seropédica, Itaguaí, Paracambi, Japeri e Queimados10, além de Magé e Guapimirim, que compõem uma transição Baixada-Leste Metropolitano11.

Por que decidiram flexibilizar o isolamento?

Ainda nas primeiras semanas de isolamento, com letalidade menor nas áreas nobres, o que se viu foi um grande relaxamento do isolamento social nos bairros da Zona Sul, onde cada vez mais pessoas saem de casa para fazer atividade física nos calçadões da orla carioca6. Pessoas públicas, que na TV incentivaram a campanha “Fique em Casa”, foram flagradas em caminhadas rompendo o isolamento social. A demora em disponibilizar o auxílio emergencial para a população aos trabalhadores informais, autônomos e desempregados, junto a incapacidade de atender a todos que deveriam receber, também fez com que muitos não pudessem manter o isolamento social por uma questão de sobrevivência, aumentando a pressão econômica e da opinião pública sobre a manutenção das restrições.

Diante do exposto, é possível afirmar que a região metropolitana do Rio de janeiro está atravessando diferentes estágios da pandemia da Covid-19. A capital como epicentro registrando muitos casos e muitos óbitos, principalmente nos bairros periféricos. Seguido pela baixada fluminense, com maior incremento do número de casos nos municípios que frentes de expansão urbana da metrópole, o extremo oeste metropolitano e a transição baixada fluminense-leste metropolitano, onde a infraestrutura é mais precária. Nesses municípios é onde estão as maiores concentrações de infectados, proporcionalmente por 100 mil habitantes. Entretanto, esse incremento de casos não foi acompanhado pelo incremento de óbitos. Acredito que, infelizmente, é muito provável que haverá um forte crescimento do número de mortes nas próximas semanas.

Crescimento que pode ser ainda maior devido ao fato de que a flexibilização foi permitida uniformemente para toda a região metropolitana, pelo governador do estado do Rio de Janeiro, cabendo aos prefeitos decidir sobre suas particularidades. Diante da pressão econômica, do longo período em isolamento social, e de outras questões citadas anteriormente, grande parte da população tem saído para as ruas nesta primeira semana de flexibilização, lotando shoppings e praias. Agora, mais do que nunca, é imprescindível haver transparência na divulgação dos dados, com objetivo de acompanhar a curva de crescimento de casos e óbitos por Covid-19 e, se preciso, restringir a circulação de pessoas novamente. Transparência que foi sendo perdida ao longo do tempo no site da Secretaria Estadual de Saúde, quando não mais conseguimos informações dos infectados por bairro de residência – estava disponível em 14 de abril, mas não em 12 de junho de 2020 – o que permitiria uma análise mais detalhada da pandemia no Rio de Janeiro.

Referências

1 FARIAS, Heitor Soares de. A Dispersão da Covid-19 na Baixada Fluminense: um paralelo entre Duque de Caxias e Nova Iguaçu. PPGIHD/UFRRJ Openlab. Disponível em: https://www.ppgihd-open-lab.com/post/a-dispers%C3%A3o-da-covid-19-na-baixada-fluminense-um-paralelo-entre-duque-de-caxias-e-nova-igua%C3%A7u. Acessado em: 13 de junho de 2020.

2 ALVES, Chico. Após dizer que igreja cura covid 19 prefeito está internado com a doença. UOL, Rio de Janeiro. 12.04.2020. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/colunas/chico-alves/2020/04/12/apos-dizer-que-igreja-cura-covid-19-prefeito-esta-internado-com-a-doenca.htm. Acessado em: 13 de abril de 2020.

3 REGEUIRA, Chico. Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, é a 2º cidade em número de mortes no RJ. O Globo, Rio de Janeiro, 13.04.2020. Disponível em: https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2020/04/13/ultima-a-restringir-comercio-na-regiao-metropolitana-caxias-e-a-segunda-cidade-do-rj-em-numero-de-mortes.ghtml . Acessado em: 16 de abril de 2020.

4 NUNES, Maíra e CARDIM, Maria Eduarda. Coronavírus é mais letal para pacientes pretos e pardos. Correio Braziliense, Brasília. 13.04.2020. Disponível em: https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/brasil/2020/04/13/interna-brasil,844115/coronavirus-e-mais-letal-para-pacientes-pretos-e-pardos.shtml. Acessado em: 16 de abril de 2020.

5 SANTOS, Milton e SILVEIRA, Maria Laura. O Brasil: território e sociedade no início do século XXI. Rio de Janeiro: Record, 2001.

6 NITAHARA, Akemi. Cai taxa de isolamento social na cidade do Rio de Janeiro. Agência Brasil, Rio de Janeiro. 05.05.2020. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2020-05/cai-taxa-de-isolamento-social-na-cidade-do-rio-de-janeiro. Acessado em: 11 de junho de 2020.

7 Painel Rio Covid 19. Disponível em: http://www.data.rio/app/painel-rio-covid-19. Acessado em: 11 de junho de 2020.

8 GOVERNO DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO. Painel Coronavirus Covid-19. Secretaria de Saúde, Rio de Janeiro. 14.04.2020. Disponível em: http://painel.saude.rj.gov.br/monitoramento/covid19.html. Acessado em: 14 de abril de 2020.

9 ROCHA, André Santos da. Os efeitos da reestruturação econômica metropolitana na Baixada Fluminense: Apontamentos sobre o “novo” mercado imobiliário da região. Espaço e Economia: Revista Brasileira de Geografia Econômica, ano III, n. 6, janeiro-junho de 2015.

10 OLIVEIRA, Leandro Dias de. A emersão da região logístico-industrial do Extremo Oeste Metropolitano fluminense: reflexões sobre o processo contemporâneo de reestruturação territorial-produtiva”. Espaço e Economia: Revista Brasileira de Geografia Econômica, ano IV, n. 7, 2015. Disponível em: http://journals.openedition.org/espacoeconomia/1814. Acesso em: 13 de junho de 2020.

11 FORTES, Alexandre; OLIVEIRA, Leandro Dias de; SOUSA, Gustavo Mota de. A COVID-19 na Baixada Fluminense: Colapso e apreensão a partir da periferia metropolitana do Rio de Janeiro. Espaço e Economia: Revista Brasileira de Geografia Econômica, ano IX, n. 18, 2020. Disponível em: https://journals.openedition.org/espacoeconomia/13591. Acessado em: 13 de junho de 2020.

214 visualizações

© 2020 por PPGIHD-UFRRJ

  • Black Facebook Icon
  • Black Twitter Icon
  • Black LinkedIn Icon